quarta-feira, 11 de março de 2020

Publicações

Salvo raras exceções, a maioria das pessoas não percebe a evolução do meio em que vive e sua real posição em relação ao universo das coisas.
Persiste, entretanto, a eterna dúvida sobre a origem e destino de tudo que, devido às limitações de nossa mente, tendemos colocar num paradigma de começo, meio e fim, dentro de um espaço/tempo.
Até onde sabemos ou imaginamos, o universo teve início a partir da explosão de toda a matéria, até então comprimida, num fenômeno designado por “big bang”.
O processo criativo, através de bilhões de anos, manifesta-se, atualmente, numa forma de vida inteligente que participa da criação de forma nem sempre sensata.
Ao contrário de outras espécies de animais, o homem deve sua sobrevivência ao fato de ter desenvolvido uma sociedade colaborativa em que, por sua capacidade exploratória e investigativa, obteve sucesso com a participação de cada indivíduo em benefício comum.
 Nos primórdios da civilização, abandonando o nomadismo, estabeleceu-se próximo aos cursos de água que, como elemento vital, propiciou-lhe a elaboração do próprio alimento, tornando-o menos dependente dos caprichos da natureza.
Nesse ambiente protegido, dedicou-se a desenvolver, cada vez mais, uma mente criativa, baseada na observação e experimentação.
No decorrer do tempo, surgiram as grandes descobertas que tornaram vida humana mais prospera e agradável.
A mesma capacidade investigativa, porém, que lhe propiciava elementos físicos para sustentação da vida, instigava-o a buscar explicações para tudo o que acontecia ao seu redor, tranquilizando-o e suprindo sua necessidade de proteção contra a agressividade que gerava a diferença de potencial, necessária à evolução.
E foi nessa calda em ebulição que as culturas foram sendo delineadas por conflitos de interesses e conciliações amigáveis, numa relação interessante e interesseira.
Através de séculos, gerações de homens viram dinastias e reinados surgirem e desaparecerem, procurando equilibrar interesses, ostentar poder e riqueza, atravessar montanhas, florestas e desertos, cavalgar ondas, construindo caminhos e cidades.
A ambição levou-o a conquistas sem limites físicos e morais, por meio de artifícios que beiram a insanidade.
Essa ascensão  rápida e alucinada, proporcionada pela pirotecnia em que ele transformou a pequena fogueira das cavernas, levou-o a píncaros de onde pode vislumbrar um mundo animal do qual ele ainda é parte constituinte.
A tecnologia fez do homem a obra prima do processo criativo atual, sendo absolutamente imprescindível ele fazer reajustes na sua estrutura dentro do contexto universal.
É comprovadamente sabido que todo o universo conhecido, até onde a ciência conseguiu vislumbrar, destina-se a uma transformação em bilhões de anos. Por ser tão distante no tempo, não é por isso que não se deva olhar para esse lado.
Confortavelmente instalado em seu dia a dia, o homem reluta em fazer mudanças      radicais, mas sente que seu conforto, da forma como é conseguido, está baseado em normas que podem ditar sua sentença de morte.
Após ter experimentado, ao longo do tempo, várias formas de energia para desenvolver suas atividades, o homem adotou a energia decorrente da combustão como sendo a mais eficiente para trabalhos mais pesados.
É um tipo de energia que pode ser obtida em qualquer lugar que ele vá, desde que o homem transporte consigo o combustível e o oxigênio onde este não estiver disponível. Apresenta, entretanto, o inconveniente de gerar resíduos perigosamente poluentes, além de esgotar fontes não renováveis de combustíveis com baixo rendimento.
Com o aumento da população que, devido ao êxodo rural e mecanização das atividades agrícolas, passou a concentrar-se em grandes aglomerados urbanos, surgiu o fenômeno da poluição atmosférica e problemas decorrentes da alta densidade demográfica.
As autoridades sanitárias têm alertado constantemente para os riscos à saúde que é, ou deveria ser, a base sobre a qual se assenta toda atividade humana.
Paralelamente à energia proveniente da combustão, evoluiu a energia proporcionada pela indução eletromagnética ou energia elétrica.
Limpa e silenciosa, a energia elétrica é vista como alternativa energética, porém, com sérias restrições quanto à mobilidade humana, uma vez que ela tem que ser produzida, de maneira eficiente, em locais específicos, com potencial hidrelétrico, e conduzida a longas distâncias com sensíveis perdas, para a utilização.
Como forma de atender demandas, tem-se cogitado e experimentado a produção de energia elétrica como subproduto de energia térmica em termelétricas e energia nuclear, ambas com consideráveis desvantagens econômicas e de segurança.
Movido pela premente necessidade de mudanças, tem-se incentivado a inovação, na busca por novos modelos energéticos, tais como :  eólico, fotovoltaico e outros, voltados para produção de energia elétrica eficiente.
Para atender a demanda, cada vez maior, de uma frota de carros que o homem criou para seu conforto, o sonho do carro elétrico, aos poucos, vem se tornando realidade, embora, ainda acenando com dificuldades no tocante ao sistema de acumulação e produção de energia elétrica.
No que diz respeito ao atual modelo de assentamento humano, estamos assistindo a um lamentável desastre ecológico, com cidades superpovoadas de unidades habitacionais, fabricas e estabelecimentos comerciais e de serviços insalubres e geradores de dejetos poluentes e perigosos, a serviço de um consumismo absurdo para movimentar economias corruptas e corruptoras que exploram uma população ignorante de seus verdadeiros valores e equivocada em seus objetivos.
A tecnologia voltada para a produção em massa, em uma ação ambivalente, acabou gerando conforto  ma, também, um desemprego angustiante e revoltante.
É com tristeza que vemos diante de nós um panorama de mazelas que, como um prenúncio, certamente, nos motivarão para mudanças, já que o homem é um ser regenerativo.
Ao que tudo indica, parece que estamos às vésperas de grandes transformações sociais, como consequência de mudanças estruturais. É como se uma ampulheta estivesse sendo virada para um recomeço de tudo. O modelo energético mais viável para a sociedade humana, nesta fase de desenvolvimento, ainda é baseado no aproveitamento racional da força gravitacional exercida pelo planeta sobre os corpos de água que descem dos continentes para os oceanos e mares.
A partir daí pode-se construir um modelo energético elétrico com capacidade de propiciar uma modificação no modelo de assentamento humano, dando ênfase ao verticalismo das edificações, com espaçamento maior entre elas, seguindo as linhas de produção de energia, que será produzida e consumida no mesmo local, sem a necessidade de transportá-la a grandes distâncias.
Prosseguindo com estes pensamentos um tanto visionários, o homem poderá se dar ao luxo de construir edificações herméticas, tanto para si como para grande parte dos componentes de sua alimentação totalmente climatizadas.  
Com abundância de energia, a produção de tudo na terra e seu transporte se tornarão muito mais baratos, desafogando as economias e incentivando a indústria e comércio, com a consequente geração de empregos.
O foco de todo processo criativo é, indubitavelmente, o homem que, como todo animal, tem como fonte de sua energia vital, um processo de biodigestão.  É a utilização de sua energia, entretanto, que o faz diferente, quando utiliza uma mente privilegiada pela evolução, em atividades cada vez mais intelectuais e criativas.
É a saúde e educação física e mental dessa criatura que a mantém na vanguarda de todo o processo criativo e evolutivo da existência. Interagir intensamente com o ambiente é necessário, para que possa, cada vez mais, governar que ser governado. Acumular os benefícios do fruto de seu trabalho e delegar a sua administração , sem o conhecimento de sua aplicação, resultará em uma alienação submissa e ignorante, criando classes conflitantes e desorientadas.
Conflitos sempre existiram e existirão como parte integrante de um processo dialético de evolução. A situação de risco se manifesta, entretanto, quando o fenômeno se processa por instintos incontroláveis e nocivos.
A história nos mostra que povos se tornavam mais orgulhosos, arrogantes e agressivos, na medida em que se tornavam mais prósperos e ricos. As vitórias pelas armas se tornaram privilégio de sociedades ricas, até que a ciência e a tecnologia descobriram, na natureza, radiações mortíferas. Atualmente pode-se inutilizar uma frota inteira de navios de guerra, sem quebrar, sequer, um parafuso deles. Tal tipo de atividade deve ser  banida, definitivamente, da mente humana.
E assim, como sugere o nome deste artigo, o homem deve, com toda sua capacidade e vontade, orientar-se para um futuro cheio de novos conhecimentos benéficos e sepultar, para sempre, as experiências malditas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012


UEMG – UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINS GERAIS
FAE – FACULDADE DE EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA (FORA DE SEDE-POÇOS DE CALDAS MG)
CAMPUS BELO HORIZONTE MG






INTEGRAÇÃO ENTRE QUESTÕES BIOÉTICAS E QUESTÕES PEDAGÓGICAS




Nilton José Lopes








Poços de Caldas
2011
NILTON JOSÉ LOPES





INTEGRAÇÃO ENTRE QUESTÕES BIOÉTICAS E QUESTÕES PEDAGÓGICAS

Pesquisa apresentada ao programa de graduação pela UEMG – Universidade de Estado de Minas Gerais, para TCC – Trabalho de Conclusão de Curso de Pedagogia,(fora de sede), sob a orientação do Prof. Carlos Roberto de Oliveira Costa.




UEMG – Universidade do estado de Minas Gerais
Poços de Caldas MG
2011

UEMG – UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS
FAE – FACULDADE DE EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA (FORA DE SEDE-POÇOS DE CALDAS MG)
CAMPUS BELO HORIZONTE MG

Autor: Lopes, Nilton José

Título: INTEGRAÇÃO ENTRE QUESTÕES BIOÉTICAS E QUESTÕES PEDAGÓGICAS

Orientador: Prof. MS. Carlos Roberto de Oliveira Costa

Monografia de Trabalho de Conclusão de Curso de Pedagogia

Data: 06 de Dezembro de 2011

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________________________
Prof. MS. Vera Lúcia do Lago Souza

_______________________________________________________
Prof. Dr. Solange Nunes Schiavetto

_______________________________________________________
Prof.MS.Fabiana Leite Rabello Mariano (suplente)









Dedico este trabalho à minha esposa Maria Zilda de Carvalho Lopes e minha filha Guilhermina Maria Lopes de Carvalho que não mediram esforços para me auxiliar e incentivar na trajetória de busca do conhecimento.














SUMARIO


Introdução 6
Objetivos 9
Justificativa 10
Metodologia 12
Estrutura do trabalho 13
Conclusão 30
Considerações finais 31
Referências 32













INTRODUÇÃO

Nascemos e crescemos sob o olhar atento de nossos pais e parentes até que, na idade adulta, somos chamados à responsabilidade de interagirmos numa sociedade orientada principalmente para atividades de sobrevivência no meio ambiente.
Podemos, entretanto, dizer que conhecemos o meio ambiente do qual somos parte integrante e com o qual estamos em constante interação?
Não seria interessante que, numa atitude pedagógica, avaliando resultados, investigássemos se os processos, pelos quais buscamos a sobrevivência e a qualidade de vida, são adequados e eficientes?
Vamos nos imbuir desse espírito de curiosidade científica e procurar primeiramente conhecer o nosso habitat e situar-nos em relação ao todo imponderável, utilizando as convenções criadas por nossa inteligência.
Desde que o homem olhou ao seu redor, muito se tem aprendido sobre o trinômio espaço/tempo/vida como fatores interdependentes e adequados.
Usando a nossa capacidade de imaginar, suponhamos que o planeta terra tivesse seu tamanho reduzido para 1(hum) milionésimo do seu tamanho natural, ou seja, os seus 12.000 kilômetros de diâmetro fossem divididos por 1(hum) milhão, resultando numa esfera de 12 metros de diâmetro, aproximadamente do tamanho de um prédio de quatro andares.
Gravitando ao redor desta esfera estaria a lua que proporcionalmente seria uma esfera de três metros e meio de diâmetro situada a 380 metros de distância . A lua seria portanto aproximadamente do tamanho de um carro situada a uns dois quarteirões de distância da nossa terra.
Esse binário, terra/lua gravitaria em torno do sol, então uma bola de fogo de 1.400 metros de diâmetro, situada a uma confortável distância de 150 kilômetros.
Os homens na superfície dessa terra imaginária teriam dimensões microbianas (dois milésimos de milímetro).
Resumindo, seriam uma colônia de micróbios habitando uma terra redonda do tamanho de um prédio de 4 andares, tendo em algumas partes de sua superfície uma película de água de uns 3 ou 4 milímetros de espessura e cadeias de montanhas com menos de 1 centímetro de altura.
Haveria toda noite uma lua do tamanho de um carro situada a uns dois quarteirões de distância e todo dia nasceria um sol com as dimensões de uma montanha a l50 kilômetros.
Envolvendo a terra haveria uma névoa úmida de uns 4 centímetros de espessura, a atmosfera.
Se colocássemos os seis bilhões de seres humanos, agora com dimensões microbianas, enfileirados e separados por uma distância de 1 milésimo de milímetro, ao longo da linha do equador da terra, então com aproximadamente 37 metros de perímetro, obteríamos umas 162 fileiras paralelas, ocupando uma faixa de 162 milésimos de milímetro de largura. A humanidade toda caberia numa linha de aproximadamente a espessura de um fio de cabelo, ao longo do equador da terra!
É inacreditável que a existência de seres tão diminutos em relação ao planeta, possa afetar de forma tão significativa o funcionamento da biosfera a ponto de sentirmos seus efeitos não obstante a sua dimensão intelectual e espiritual que os capacita a conhecer e interagir com o meio em que vivem, promovendo a maravilhosa obra de Deus que Habita a alma humana.
É notável que o homem, ao desenvolver suas paixões ambiciosas, tenha utilizado recursos extraídos da natureza, à exaustão, mas também tenha descoberto que pode sucumbir à sua atitude devastadora.
Muito se tem falado e escrito no sentido de alertar para estas funestas consequências.
Este trabalho pretende se unir a essas vozes que, de tanto clamar no deserto, venham a encontrar eco no coração e na mente dos homens.
Até mesmo entre os animais irracionais, o instinto de preservação dita suas normas de comportamento.
Se observarmos atentamente, veremos que essas criaturas passam boa parte de seu tempo a demarcar seus territórios, chegando mesmo a entrar em conflito com invasores que ameaçam o débil equilíbrio dos recursos necessários à sobrevivência.
Não raros são os casos em que sucumbem vítimas de um invasor poderoso e implacável, o homem, que nem sempre faz uso racional da sua inteligência, um dom de Deus, no sentido de colaborar com Ele na obra da criação.
A obra de Deus, através dos homens, é algo maravilhoso mas as atitudes dessa notável criatura, ímpar na luta pela vida e conquistas fabulosas, justificam os trabalhos intelectuais que se propõem a luzir como um farol demarcando a zona de perigo. A ciência, fruto da inteligência, deve promover a vida ao invéz de destruí-la.
O homem extermina seus inimigos micróbios, domestica plantas e animais numa atitude interessante e interesseira, transforma a matéria em utilidades dinâmicas e estáticas, observa e absorve dos fenômenos a potência do sopro divino, que o faz ir em direção a um “onde” que almeja mas jamais alcança.
No vagar por esse Éden ele se aproxima da árvore proibida que afronta o seu orgulho de privilegiado, que pensa que tudo pode, que tudo quer, mesmo em detrimento de tudo o mais ao seu redor.




















OBJETIVOS

1) Contribuir para a educação ambiental como meio de promoção da qualidade de vida do homem, através de uma visão crítica e otimista da interação existente entre todas as formas de vida e o meio ambiente.



2) Conceituar, numa visão pedagógica de fácil compreensão, o meio ambiente e a vida em suas diversas manifestações como elementos interativos e integrantes de um todo harmonioso e equilibrado, que emite sinais de alerta, quando agredido.



3) Destacar, no panorama geral, o homem que, como a forma de vida inteligente e adaptada, tem a capacidade de intervir no curso normal dos acontecimentos, aprendendo com seus erros e domesticando seus instintos.











JUSTIFICATIVA

A descoberta é um termo utilizado pelo homem para expressar um sentimento de liberdade ao se livrar dos grilhões de sombras que impediam a penetração da luz da mente em algo que permanecia encoberto. Esse sentimento se manifesta lenta e gradualmente como a marcha inexorável do tempo/espaço.
Nas sucessivas gerações que compõem a vida, os viventes vão surgindo e desaparecendo numa ciranda que não cessa de se adaptar e descobrir cada vez mais.
O homem é um vivente privilegiado com uma mente que lhe permite “discernir” e “conjecturar” formando um “querer” que lhe credita a liderança na arte de sobreviver.
Assim os séculos vêm contemplando essa singular criatura que se recusa a sucumbir aos seus erros, fazendo deles impulso na sua trajetória de busca e descoberta.
Esta pesquisa pretende contribuir modestamente com o ideário que norteia essa busca sem fim movida pela ânsia de sobreviver e o medo da extinção.
Dizem que caçadores costumam atrair macacos para um recipiente preso a uma árvore, no qual existe uma abertura estreita dando acesso a uma mão aberta para apanhar uma guloseima em seu interior. Sua mão fechada, agarrada ao petisco, não pode ser retirada do recipiente pela abertura estreita.
A natureza negou a esse animal o bom senso de soltar o alimento e retirar sua mão aberta, ao notar a aproximação do caçador, salvando, assim, a própria vida.
Insensatos existem até entre os seres humanos inteligentes que, mesmo percebendo o perigo das consequências de suas atitudes agressivas ao equilíbrio do meio ambiente, preferem ficar agarrados às suas paixões mesquinhas e equivocadas.
Movidos pela ambição insana, colocam em risco todo o conjunto harmonioso da vida.
Da mesma forma que as células do sangue acorrem pressurosas para impedir a intrusão de um corpo estranho no organismo, devemos todos, como células que somos, zelar pela continuidade da vida como parte integrante de tudo o que somos capazes de perceber ao nosso redor.


Somente assim conseguiremos manter viva a base natural do desenvolvimento, a biosfera, que culminou com o aparecimento da inteligência humana e acena com novas conquistas intelectuais, morais, psíquicas e espirituais.

























METODOLOGIA

O pesquisador pautou seu trabalho em pesquisa bibliográfica, procurando demonstrar o que é o meio ambiente terreno e qual a sua relação com as características do sistema solar, em particular, e do universo conhecido, em geral.
Em seguida, ainda em pesquisa bibliográfica, procurou saber o que é e como tem sido levado a efeito a “Educação Ambiental”, no que concerne às relações do homem com o solo, subsolo, água, ar, para produção de alimentos, energia, habitação, toda sorte de bens duráveis e de consumo, saneamento e destinação de dejetos, inclusive o temível “lixo nuclear”, orientando-se, principalmente, pelo documento de 40 capítulos resultante da conferência das Nações Unidas ECO-92 no Rio de Janeiro.- Agenda 21


















CAPITULO I
A SOCIEDADE HUMANA

1.1 Considerações Gerais


Seja sob a ótica evolucionista ou criacionista, o homem é, indubitavelmente, a vida , por excelência.


Sem dúvida, um dos maiores mistérios da humanidade é a origem do homem e o porque de nós sermos tão diferentes dos animais.O criacionismo e o evolucionismo são duas teorias que tentam explicar a criação e a evolução do
homem.A Biblia Sagrada, mais especificamente no livro de Gênesis.narra toda história da origem de tudo que há ao nosso redor, como sol, estrelas e seres vivos, inclusive a do homem. O primeiro versículo da Biblia já diz:
“No princípio criou Deus os céus e a terra”. Esta é a idéia central do criacionismo: Deus criou todas as coisas, inclusive o homem.
Deferentemente do criacionismo, o evolucionismo, fruto de um conjunto de pesquisas iniciadas pelo legado deixado pelo cientista Charles Darwin, afirma que o homem é resultado de uma longa evolução iniciada há cerca de cinco milhões de anos, desde os hominídeos até o homo sapiens, o qual corresponde ao homem, com suas cacterísticas atuais.
( www.historiadetudo.com)

Desde a origem, perdida no tempo, essa singular criatura passou por muitas transformações e vem transformando tudo a seu redor, muitas vezes como uma criança desastrada e teimosa.
Usando seu agudo senso de observação, conseguiu até desenvolver métodos de vasculhar o passado e atrever-se a conjecturar o futuro. Até onde pode, consegue imaginar uma criatura relativamente frágil, tentando sobreviver em meio a um universo violento e hostil. É o começo da história.



O grupo dos primatas a que pertence o nosso macaco pelado, provem originalmente de um tronco insetívoro.Esses primeiros mamíferos eram criaturas insignificantes e pequenas que se esgueiravam nervosamente pelas florestas abrigadas ao mesmo tempo que os répteis todo-poderosos dominavam o mundo animal. Há cerca de oitenta ou cincoenta milhões de anos após o desmoronamento da era dos répteis, os pequenos comedores de insetos começaram a aventurar-se a explorar novos territórios. Foi então que se espalharam e cresceram sob muitas formas extranhas. Alguns tornaram-se comedores de plantas, escavando o solo para protegerem ou desenvolvendo pernas longas com andas para melhor escapulirem dos inimigos.Outros transformaram-se em assassinos, com garras compridas e dentes aguçados. Embora os grandes répteis tivessem abdicado e desaparecido da cena, a natureza continuava a ser um campo de batalha.(MORRIS, Desmond. 1967. P. 15)

A capacidade de segurar e manipular objetos com as mãos, mediante o polegar opositor, foi o pequeno detalhe que, aliado a um cérebro privilegiado, a natureza proporcionou-lhe, colocando-o na vanguarda dos adaptados. O simples hábito de atirar pedras e objetos contundentes desenvolveu-se através dos tempos que podemos hoje atingir alvos a centenas ou milhares de metros.
O contato com a energia proporcionada pelo fogo, constitue hoje a base de todo dinamismo da sociedade humana com seus mecanismos bizarros para os mais variados fins.
De acordo com os historiadores e arqueólogos,o domínio da produção do fogo foi um dos principais avanços da humanidade, colaborando para o desenvolvimento da raça humana.Na época anterior à descoberta do fogo, os seres humanos tinham que esperar um raio cair em uma árvore ou um incêndio numa floresta. O homem ficava totalmente dependente do acaso para conseguir este precioso bem. Com o desenvolvimento da inteligência, através da observação, o homem conseguiu produzir o fogo. Este processo ocorria de duas formas: 1) Batendo uma pedra na outra e produzindo faísca que atingia palha 2) friccionando graveto seco numa madeira até produzir a faísca atingindo a palha. Com a produção do fogo, o homem pré-histórico garantiu um grande avanço pois podia iluminar a caverna, cozinhar a carne, espantar os animais selvagens e garantir o aquecimento nas épocas de frio.(www.professordehistoria.com)
Outra grande conquista foi a descoberta da roda, resultado da observação de movimentos circulares, tão comuns em nosso universo. Esse tipo de movimento repetitivo é que impulsionou a marcha das civilizações através do tempo e do espaço.
Na verdade a invenção da roda é motivo de discussão entre os grandes historiadores de todos os tempos. Alguns sustentam que essa peça de tamanha simplicidade foi a maior criação do homem estudando o movimento do astro sol, como se ele rodasse ao redor da terra. Por terem sido fabricadas em madeira, as primeiras rodas ja foram certamente destruidas pela ação do tempo.(Alberto Coury Nassour, engenheiro de materiais. Revista Eletrônica de Ciências, numero 19, Maio/Junho , 2003)
Foi no abrigo das cavernas, principalmente, que os homens começaram a formar uma sociedade cooperativa e registrar a história mas ficariam horrorizados se se deparassem de repente no centro de uma sociedade atual. Acostumados a enfrentar adversários poderosos, se veriam agora frente à frente com um ambíguo parceiro e adversário formidáveis, ele mesmo.
Assim, o homem, dotado de um agudo senso de observação e uma curiosidade que transcende o simples instinto, conseguiu desenvolver processos e ferramentas que lhe permitem analisar o ambiente e tirar conclusões quase sempre acertadas. Essa capacidade de conjecturar é o grande diferencial que o coloca na vanguarda da vida.

Existe vida no planeta terra? Das duas,uma: ou a vida se formou aqui, a partir dos elementos químicos que deram origem ao nosso planeta (“Geração Espontânea “); ou a vida veio de fora em estágio de desenvolvimento que pode ter sido mais ou menos complexo(“Panspermia”).(Professor Renato Las casas 27/11/2001. www.observatio.ufmg.br).

Os outros seres viventes interagem normalmente dentro de certos parâmetros naturais de nascer, crescer, reproduzir e morrer, mas a mente humana é tão sofisticada que é capaz de fantasiar e, angustiada, quer ultrapassar as fronteiras desse movimento circular universal.
Incapaz de satisfazer o seu “por que?” e “para que?”, persegue sempre um horizonte que nunca atinge. Até os maiores pensadores já estão concluindo que “ tudo não é constituido só de átomos mas também de fé”


1.2 Dinâmica Demográfica e Assentamentos Humanos

O crescimento da população mundial e da produção, associado a padrões não sustentaveis de consumo, aplica uma pressão cada vez mais intensa sobre as condições que tem nosso planeta de sustentar a vida. Esses processos interativos afetam o uso da terra, a agua, o ar, a energia e outros recursos. As cidades em rápido crescimento, caso mal administradas, deparam-se com problemas ambientais gravíssimos. O aumento do número e da dimensão das cidades exige maior atenção para questões de governo local e gerenciamento municipal. Os fatores humanos são elementos fundamentais a considerar nesse intrincado conjunto de vínculos; eles devem ser adequadamente levados em consideração na formulação de políticas abrangentes para o dsenvolvimento sustentável. Tais políticas devem atentar para os elos existentes entre as tendências e os fatores demográficos, a utilização dos recursos, a difusão de tecnologias adequadas e o desenvolvimento. As políticas de controle demográfico também devem reconhecer o papel desempenhado pelos seres humanos sobre o meio ambiente e o desenvolvimento. É necessário acentuar a percepção dessa questão entre as pessoas em posição de tomar decisões em todos os niveis e oferecer, de um lado, melhores informações sobre as quais apoiar as políticas nacionais e internacionais e, de outro, uma estrutura conceitual para a interpretação dessa informações. ( Agenda 21 . cap. 5)

Se folhearmos a história ela nos remeterá a um primórdio das civilizações onde vagavam tribos nômades com seus rebanhos sempre à procura de vegetação nova e nutritiva. Mas a terra amamenta seus filhos até que eles cresçam e percebam que cuidar é imperativo para a sobrevivência. Foi na Mesopotâmia, segundo historiadores, que o homem aprendeu a cultivar o solo e tornou-sedentário. De acampamentos surgiram vilas, povoados e cidades. Territórios foram sendo demarcados e defendidos ferozmente num apelo dos antigos instintos animais. Mas nem só de lutas vive o animal. A simbiose também oferece alternativas para a sobrevivência. As comunidades começaram a interagir através de suas vias de comunicação e as trocas de seus produtos intensificaram tanto que se viram obrigados a idealizar meios mais eficientes de valorá-los. Assim nasceu esse fenômeno denominado “moeda” que, para alguns, é “servo” e, para outros, é “senhor absoluto”. É curioso o fascínio que exerce sobre o homem, essa instituição que, atavés do tempo, vem provocando benefícios vitais e conflitos ferozes.
Nenhum animal, exceto o homem, tem o hábito de armazenar energias para toda a vida e até para a descendência. O homem, singularmente, exerce o poder de dominação proporcionado pela posse da moeda, dentro de sua sociedade e é capaz de reações extremamente violentas na competição pela hegemonia econômica e, consequentemente, política. Ele, usando sua inteligência, consegue captar recursos que outros membros da sociedade acumularam e direciona-os para atividades nem sempre ecologicamente corretas e de comprovada eficiência. Diariamente tomamos contato com noticiários recheados de escândalos resultantes de irregularidades em instituições financeiras, sociedades anônimas, organismos governamentais e não governamentais, etc.
Na maioria das vezes, o acionista ou poupador adere incógnita e inocentemente a programas escusos, movido unicamente pelo intresse financeiro, sem ter acesso a ideologias do aglomerado capitalista.
Numa sociedade primitiva, naturalmente que as atividades agrárias preponderavam, já que uma população relativamnte pequena necessitava, basicamente, de produtos destinados a manter a força física utilizada nos trabalhos agrícolas. A população era constituida, essencialmente, de agricultores sedentários.
Praticamente isento de predadores, o homem iniciou um processo de reprodução acelerada provocando assim o desenvolvimento de outras técnicas para aumentar a produção de alimentos e utensílios destinados a uma população maior e em constante crescimento.
Num panorama desses, uma parte da população estava ocupada com tarefas não agrícolas e, logicamente, impossibilitada de produzir o próprio alimento.
As tarefas agrícolas, entretanto, por sua simplicidade, passaram a exigir, cada vez menos mão de obra humana, agora substituida por tecnologias novas que produziam mais em menos tempo. Como consequência, a população no campo diminuiu e as cidades começaram a ficar maiores. Atualmente estamos vivenciando efeitos nocivos resultantes de tal fenômeno.
As lideranças mundiais têm dedicado grande parte de esforços e recursos no sentido de minorar esse grave problema chamado “desemprego”.
Diversos planos assistenciais não são suficientes para sanar o problema. Apela-se então para um “consumismo” exacerbado e oneroso, com o propósito de intensificar a produção de bens de consumo e duráveis, que irá criar novas vagas de emprego para uma população nervosa, estressada e carente.

Podemos definir consumismo como uma compulsão para consumir.Essa compulsão pode atacar em vários graus, desde aquela compra ocasional em que se chega em casa com a sensação de que não precisava ter comprado aquele aquecedor de travesseiros que parecia ser tão útil quando você estava na loja, até o closet transbordando com 445 pares de sapato.(Marcelo Guterman – www.portaldafamilia.org).

Os aglomerados urbanos vão empurrando suas periferias cada vez mais, invadindo cinturões verdes e destruindo áreas de preservação da natureza numa ânsia de urbanização que se processa sem planejamento adequado e sem qualidade de vida.

Urbanização é um conceito geográfico que representa o desenvolvimento das cidades. Neste processo ocorre a construção de casas, prédios, redes de esgoto, ruas, avenidas, escolas, hospitais, rede elétrica, shoppings, etc. Este desenvolvimento urbano é acompanhado de crescimento populacional, pois muitas pessoas passam a buscar a infra-estrutura das cidades. A urbanização planejada apresenta significativos benefícios para os habitantes. Porém, quando não há planejamento urbano, os problemas sociais se multiplicam nas cidades como, por exemplo, criminalidade, desemprego, poluição, destruição do meio ambiente e desenvolvimento de subhabitações. A urbanização é uma das responsáveis pelo êxodo rural (saida das pessoas do meio rural para as grandes cidades) a disciplina destinada ao estudo da urbanização chama-se urbanismo. (suapesquisa.com).

As disparidades sociais são gritantes, gerando conflitos de toda ordem e toda espécie de resíduos perigosos sob a forma de violência e miséria física,moral e espiritual. O pior é que existe um efeito perverso no sistema econômico que privilegia o capital e deprecia cada vez mais a pessoa, encarada como uma simples peça na máquina destinada a produzir muito a um custo mínimo com um lucro exorbitante. Essa situação tende a aglomerar mais ainda os meios de produção nas mãos de poucos com efeitos catastróficos para a sociedade como um todo.
Os meios de comunicação estão cheios de atrativos consumistas atrelados a facilidades de crédito que, absurdamente, tornam as pessoas reféns do consumo, gerando um círculo vicioso frustrante e desgastante.
Os aglomerados humanos vêm se multiplicando e se distanciando através do fenômeno da migração em busca de interesses diversos ou fugindo de situações adversas criando povos e nações com culturas diferentes mas sempre com um objetivo comum, a sobrevivência.

O êxodo rural provoca, na maioria das vezes, problemas sociais. Cidades que recebem grande quantidade de migrantes, muitas vezes, não estão preparadas para tal fenômeno. Os empregos não são suficientes e muitos migrantes partem para o mercado de trabalho informal e passam a residir em habitações sem boas condições.(favelas, cortiços,etc.) Além do desemprego, o êxodo rural descontrolado causa outros problemas nas grandes cidades. Ele aumenta, em grandes proporções a população nos bairros de periferia das grandes cidades. Como são bairros carentes em hospitais e escolas, a população desses locais acaba sofrendo com o atendimento desses serviços. Escolas com excesso de alunos por sala de aulas e hospitais superlotados são as consequências deste fato. Os municípios rurais também acabam sendo afetado pelo êxodo rural. Com a diminuição da população local, diminui a arrecadação de impostos, a produção agrícola decresce e muitos municípios acabam entrando em crise. Há casos de municipios que deixam de existir quando todos os habitantes deixam a região. (Portela, Fernando/Vicentini,José William- 2004)

Civilizações surgiram e desapareceram através do tempo. A capacidade de aprender com os próprios erros e equívocos ditou normas de comportamento social e o homem vem se modificando e modificando o ambiente constantemente.
Atualmente o homem tem migrado menos porque os aglomerados humanos têm sido muito seletivos nas trocas de elementos. O que ocorre mais agora é um fenômeno de migração de capitais e tecnologias numa globalização com nuances benéficas e perniciosas.

O conceito de globalização surgiu em meados da década de 1980, o qual vem a substituir conceitos como internacionalização e transnacionalização porém se voltarmos no tempo podemos observar que é uma prática muito antiga. A humanidade, desde o início de sua existência, vem evoluindo. Passou de uma simples familia para tribos, depois foram formadas as cidades-estado, nações e hoje, com a interdependência de todos os povos de nosso planeta, chegamos a um fenômeno natural, denominado de “aldeia global”. (Manoel Ruiz. www.sociedadedigital.com.br).


O homem está aprendendo mais, miscigenando-se tanto fisicamente como intelectualmente, derrubando fronteiras arcaicas. Há, entretanto, uma instabilidade emocional que emana de um sistema econômico extremamente competitivo e instável que costuma se manifestar quando a humanidade passa por mudanças bruscas nos limites de eras.
A era do petróleo tem sido considerada como o ponto culminante da obtenção de energia através da incineração de materiais que o homem extrai da natureza de forma predatória e com consequências drásticas.

O primeiro choque do petróleo, ocorrido em 1973, marcou o fim da era do combustível barato e abundante. O embargo imposto pelos árabes aos Estados Unidos e as reduções da produção e da exportação fizeram com que o preço do barril de petróleo passasse de US$ 3 para US$ 12, entre outubro de 1973 a dezembro de 1974. Com isso, os paises exportadores definiram uma nova era para o resto do mundo: a do petróleo caro e escasso.(www.energiabrasil.gov.br).

A ciência vem pesquisando novas formas de obtenção de energia e, entre elas, desenvolveu intempestivamente, para fins bélicos, processo de intervenção em estrutura atômica da natureza, provocando forças dificilmente controláveis e extremamente poluidoras.
Várias nações já desaceleraram seus programas nucleares, após eventos catastróficos ocorridos em instalações destinadas a obtenção de energia nuclear, em vários pontos do planeta.

A energia nuclear, apesar de não colaborar para a emissão desses gases, precisa lidar com o incômodo problema dos resíduos radiativos que requerem uma solução para o armazenamento a longo prazo e investimentos em segurança, além de implicarem no fantasma de um acidente nuclear. (www.consciencia.br).

O clima de apreensão gerado por esses episódios exige procedimento mais cauteloso nessa atividade e coloca dúvidas sobre a possibilidade de intervenção segura na estrutura atômica da matéria, em corpo celeste composto por matéria atomicamente estabilizada em níveis adequados à existência de vida.
Mas o certo é que a humanidade atualmente se vê às voltas com o problema energético, entre outros, para suprir as necessidades de uma população cada vez mais numerosa, habitando um planeta com um clima cada vez mais instável.
Tudo indica que para se assegurar níveis toleráveis de manutenção da vida no planeta terra, os habitantes devem conviver harmoniosamente, interagindo com o ambiente de forma menos agressiva e mais respeitosa.
Acena-se com projetos, ainda incipientes e de eficácia duvidosa, para intensificar a captação da energia indutiva eletromagnética existente, potencialmente, na atmosfera terrestre, proveniente da energia irradiada pelo sol. Para tanto, torna- se necessário aproveitar melhor os recursos hídricos e eólicos, descartando-se a queima de recursos renováveis e não renováveis.
Tudo isso implicaria em grandes transformações nos assentamentos humanos e mudanças nos padrões de consumo.

1.3 Mudanças nos Padrões de Consumo

A pobreza e degradação do meio ambiente estão estreitamente relacionadas. Enquanto a pobreza tem como resultados determinados tipos de pressão ambiental, as principais causas da deterioração ininterrupta do meio ambiente mundial são os padrões insustentáveis de consumo e produção, especialmente nos paises industrializados. Motivo de séria preocupação, tais padrões de consumo e produção provocam o agravamento da pobreza e dos desequilibrios.( Agenda 21 – capitulo 4)

Para se ter uma ideia de como vive o homem atual em sociedade, basta analisar o lixo que gera. Alí se deduz toda a sua vida, desde o tipo de energia que impulsiona seu dia-a-dia até hábitos corriqueiros de seu lazer. Para se falar em consumismo, há que se considerar, antes de tudo, que o padrão de consumo das populações varia no tempo e no espaço. As sociedades mais desenvolvidas sempre estiveram na vanguarda do consumismo concebido nas entranhas da tecnologia.
Costuma-se associar esse hábito ao advento da revolução industrial que trouxe, em seu bojo, um sentimento de orgulho e deslumbramento com os “milagres” proporcionados pelos mecanismos que, utilizando forças latentes na natureza, transformavam matérias-primas brutas, também extraidas da natureza, em produtos cada vez mais bem elaborados e agradáveis aos sentidos, muitas vezes inseridos em reluzentes embalagens, que seriam descartadas sem a mínima preocupação com o meio ambiente.

A revolução industrial teve início no século XVIII, na Inglaterra com a mecanização dos sistemas de produção. Enquanto na Idade Média o artesanato era a forma de produzir mais utilizada, na Idade Moderna tudo mudou. A burguesia industrial, ávida por maiores lucros, menores custos e produção acelerada, buscou alternativas para melhorar a produção de mercadorias. Também podemos apontar o crescimento populacional, que trouxe maior demanda de produtos e mercadorias. (www.suapesquisa.com)

À euforia proporcionada por tal opulência, contrapõe-se, também, uma competição acirrada por mercados consumidores levada a efeito por paises produtores.
Coincidentemente com o ocaso dos motores de combustão externa que utilizavam a energia do vapor d’agua e o advento dos motores de combustão interna que, ao contrário, utilizavam derivados de petróleo, as nações se engalfinharam em sangrentas lutas pela hegemonia econômica, seduzidas pela perspectiva de um mundo deslumbrante que o precioso ouro negro poderia proporcionar.
Por ironia do destino, as maiores reservas de petróleo localizavam-se em territórios de nações sem nenhuma cultura técnica que foram corrompidas dando origem a governos riquíssimos e povo pobre e ignorante.
A segunda metade do século XX assistiu a uma verdadeira revolução tecnológica que, partindo de paises desenvolvidos, se alastrou rapidamente pelo mundo levada pelo efeito globalizante de uma economia capitalista baseada no binômio produção/consumo.

O ser humano, dotado de sua inteligência, buscou formas, durante toda a história, de vencer os obstáculos impostos pela natureza. Desta forma foi desenvolvendo e inventando instrumentos tecnológicos com o objetivo de superar dificuldades. Podemos dizer que a necessidade é a mãe das grandes invenções tecnológicas. (www.suapesquisa.com).

Até a ideologia comunista, que se instalou na União Soviética no pós-guerra, sucumbiu aos encantos do consumismo desenfreado, para não ver sua economia estagnada no isolacionismo.
Após um período de tensa guerra fria, os Estados Unidos da América do Norte ainda gozam de um relativo prestígio na comunidade mundial, mas a economia globalizada já acena com novos parâmetros no panorama com claras tendências ao colaboracionismo para a sobrevivência. As velhas estruturas nacionalistas, onde paises ricos manipulavam economias de paises pobres, vem sendo abaladas por eventos violentos e revanchistas do terrorismo internacional.
Esse tipo insólito de ação armada é particularmente perverso por sua ação subversiva e imponderável.

“Uma doença social percorre a terra, contaminando as nações com a pestilência da morte. O terror colhe sua safra sinistra em todas as partes do planeta.” (www.library.com.br)

Todos os paises estão perseguindo um objetivo comum que é o combate à pobreza como forma de reduzir a distância entre pobres e ricos através da educação. Chegou-se à conclusão de que investimentos em paises em desenvolvimento só surtem efeito positivo quando, primeiro,se educa o povo. Do contrário, o que se tem observado é um elevado nível de corrupção e ineficiência.
A educação, quando ministrada de forma responsável e objetiva, não só prepara um povo para se livrar da pobreza, mas, sobretudo, o dignifica como ser humano, elevando seu nivel de autoestima e pautando suas ações segundo objetivos nobres no contexto universal. É verdade que há um longo caminho até atingirmos um nivel satisfatório de objetividade e eficiência. A educação ainda continua sendo objeto de comércio, com processos seletivos injustos orientados para uma dissimulada reserva de mercado de trabalho e oportunidades. A sua qualidade, por enquanto é incipiente e os processos educacionais deveriam muito mais estimular, inclusive no aluno novo, o gosto pela pesquisa do que insistir nos velhos esquemas de transmissão de conhecimento.
Mas, infelizmente, ainda permanecemos em uma fase em que se mede a riqueza de um povo, baseando-se em estatísticas equivocadas do volume de bens materias que se possui.
É notório o fascínio que exerce o automóvel sobre o cidadão moderno, para gaudio e prosperidade da indústria automobilística. O fenômeno adquire tamanha proporção que nem mesmo os monumentais congestionamentos de trânsito são capazes de desestimular o uso do veículo. Esse objeto de consumo, muitas vezes, é tão mal utilizado que tem provocado acidentes com estatísticas alarmantes de mortes e ferimentos nas nossas ruas e estradas. É lamentável que a humanidade venha perdendo tantas vidas simplesmente no ato de se deslocar sobre seu planeta.
As nações veem seus orçamentos onerados, absurdamente, com despesas de combustível, principalmente em atividades de lazer.
O transporte de bens duráveis e de consumo é feito, quase que em sua totalidade, por rodovias, o que sobrecarrega o consumidor com despesas insuportáveis. Nos paises de grande extensão territorial, então, o problema se agrava, visto que a distância entre centros produtores e consumidores é enorme.
O problema mais grave resultante da atividade humana é, entretanto, a poluição ambiental, uma ameaça constante aos biomas e à saúde humana.

Podemos definir poluição ambiental como a ação de contaminar as águas, solo e ar. Esta poluição pode ocorrer com a liberação, no meio ambiente, de lixo orgânico, industrial, gases poluentes, objetos materiais, elementos químicos, entre outros. A poluição ambiental prejudica o funcionamento dos ecossistemas, chegando a matar várias espécies animais e vegetais. O homem também é prejudicado com esse tipo de ação, pois depende muito dos recursos hídricos, do ar e do solo para sobreviver com qualidade de vida e saúde. Os principais poluentes ambientais são: chumbo,mercúrio, benzeno, enxofre, monóxido de carbono, pesticidas, dioxinas e gás carbônico. (www.suapesquisa.com)


Os organismos animais e vegetais são acometidos, seguidamente, por doenças provocadas por microorganismos comumente em mutação gerada pelo desequilibrio natural. Produtos químicos utilizados na produção de alimentos e drogas estão lesando, seriamente, órgãos vitais e interferindo na imunidade. Some-se a isso as pressões psicológicas decorrentes de atividades estressantes ou problemas sociais que, não raras vezes, levam, principalmente, os mais jovens a fazer uso abusivo de drogas e substâncias tóxicas.
Relacionamentos sociais promíscuos e permissividade são relatados como causa de disseminação microbiana podendo disso resultar até epidemias.
Felizmente, a educação sanitária e os serviços de saúde e previdenciários teem se aperfeiçoado constantemente tentando controlar essa massa humana e biomas, para que não venham a acontecer, como no passado, grandes tragédias.
Todas estas considerações nos fazem refletir que há uma imperiosa necessidade de se mudar padrões. Mas, para tanto, é necessário mudar a mentalidade e ter a coragem de sair do esquema, instalado, enquanto há tempo para isso. A experiência do passado, contudo, nos mostra que o homem só muda mesmo quando pressionado por grandes catástrofes e situações de extrema urgência.




CAPITULO II
OS RECURSOS NATURAIS

2.1 Proteção da Atmosfera

A energia é essencial para o desenvolvimento social e econômico e para uma melhor qualidade de vida. Boa parte da energia mundial, porém, é hoje produzida e consumida de maneiras que não poderiam ser sustentadas caso a tecnologia permanecesse constante e as quantidades globais aumentassem substancialmente. A necessidade de controlar as emissões atmosféricas de gases que provocam o efeito estufa e de outros gases e substâncias deverá bsear-se cada vez mais na eficiência, produção , transmissão, distribuição e consumo da energia, e em uma dependência cada vez maior de sistemas energéticos ambientalmente saudáveis, sobretudo de fontes de energia novas e renováveis. Todas as fontes de energia deverão ser usadas de maneira a respeitar a atmosfera, a saúde humana e o meio ambiente como um todo. (agenda 21 cap 9)

A atmosfera terrestre é uma capa protetora tão tênue relativamente ao planeta que, se a humanidade tomasse consciência disso, dispensaria a ela os maiores cuidados possíveis. A atmosfera é, de fato, a proteção da vida no planeta. Ela faz parte da vida e do planeta assim como o planeta e a vida fazem parte dela.
Alguns mundos, devido ao seu baixo efeito gravitacional, não conseguem reter uma atmosfera gasosa. Outros têm uma atmosfera até bem espessa, mas nenhum tem uma vida atmosférica, isto é, uma vida com os mesmos elementos atmosféricos. Ultimamente o homem é que anda quebrando essa interação. As providências a serem tomadas exigem urgência, inteligência e uma boa dose de sensatez.
O modelo energético tem que ser mudado e, da mesma forma, a dinâmica demográfica e os padrões de consumo devem sofrer alterações. Já não se concebe mais que pessoas e seus produtos circulem pelo planeta, expelindo fumaça. A atmosfera já não consegue canalizar tanta fumaça para os mares e vegetação. Ela está sufocando. Além da combustão, o homem ainda se dedica à remoção de grandes extensões de florestas, interferindo no ecosistema como um todo.
Para satisfazer seu ímpeto consumista, cria em seus laboratórios, toda sorte de produtos químicos que acabam produzindo efeitos desastrosos na atmosfera, com consequências funestas para a vida.
Apesar do homem ser de dimensões microbianas em relação ao planeta, essa incrivel colônia pode infectá-lo completamente.

2.2 Recursos Terrestres

Bem no fundo desse oceano gasoso vive o homem e a maior parte dos outros seres vivos. Alí impera a lei do mais forte, do mais adaptado e do mais inteligente, dentro de uma cadeia alimentar obedecendo a uma ordem hierárquica baseada frequentemente na agressividade. A base que fornece todos os nutrientes é um solo de materiais sedimentados, rico em minerais e água.
Personagem criada por Deus à Sua imagem e semelhança, o homem tem que agir em sintonia , sob pena de estragar tudo.
Desde que sentiu o solo a seus pés, o homem vem retirando dalí, toda sua vitalidade. Nele via nascer e crescer seu alimento. Aos poucos foi aprendendo a retirar materiais para executar tarefas que inventava para se defender, para agredir, para se locomover, para viver...
Mas o homem tornou-se o rei da criação. Sem predadores que controlassem sua população, proliferou e ameaça tornar-se uma “anomalia” e seus efeitos negativos estão começando a se manifestar no universo das coisas.
Esse animal bípede adquiriu até a propriedade de decidir e, como tal, parece estar decidido a sobreviver mesmo quando tudo à sua volta acabar. Para isso é necessásrio que comece a tomar as providências imediatamente.
Não há dúvida que tem feito progresso na obtenção de energia, alimentos, vestuário, habitação, transporte, controle e manutenção da saúde, educação, etc. Mas é necessário tomar cuidado com os exageros, principalmente do lazer.
Precisa refletir sobre o que vem fazendo com sua parceira, a floresta. Deve reflorestar, evitar incêndios e cuidar de sua genética para que ela possa continuar a fazer sua parte pelo bem de todos.
É urgente precaver-se para que não venha a acontecer de sentir-se um estrangeiro na terra de outro só porque seu tetravô abusou do uso da terra natal e você teve de emigrar. Hoje você volta lá só para fazer turismo...nas dunas de areia.
Regiões montanhosas são particularmente sensíveis à erosão e o desmatamento aí é, realmente, lamentável. A mata é a proteção natural das fontes de água. É na montanha que o lençol freático eclode, por força da gravidade, em toda a sua base, provocando o aparecimento de fontes que irão alimentar os cursos d’agua da bacia hidrográfica e participar de todo o ciclo da água, fenômeno vital no planeta.
2.3 Desenvolvimento Rural e Agrícola

No ano de 2025, 83 por cento da população mundial prevista, de 8,5 bilhões de habitantes, estarão vivendo nos paises em desenvolvimento. Não obstante, a capacidade de que os recursos e tecnologias disponíveis satisfaçam às exigências de alimentos e outros produtos agrícolas dessa população em desenvolvimento, permanece incerta. A agricultura vê-se diante da necessidade de fazer frente a esse desafio, principalmente aumentando a produção das terras atualmente exploradas e evitando a exaustão ainda maior de terras que só marginalmente são apropriadas para o cultivo.( agenda 21 cap. 14)

A atividade agrícola é, sem dúvida, uma das principais atividades do ser humano. A história situa o início da atividade agrícola coincidindo com o estabelecimento sedentário do homem à margem de rios, em substituição ao pastoreio nômade. São notórias as plantações às margens do rio Nilo, no Egito, aproveitando a fertilidade do solo após as cheias daquele rio.
Atualmente, o homem exerce atividades agrícolas e agropecuárias, praticamente, em qualquer tipo de solo, utilizando técnicas apropriadas para corrigir a acidez e demais práticas necessárias, movido pela demanda sempre crescente por alimentos para uma população também em crescimento estabelecida, principalmente, nos centros urbanos.
A agricultura familiar, muito utilizada até bem pouco tempo atrás, tornou-se ineficiente para grandes produções a baixo custo para abastecer grandes mercados consumidores.
A grande produção apresenta, entretanto, o incoveniente de impactar o ambiente, desde o preparo do solo, principalmente em áreas sujeitas à erosão, até a colheita e armazenamento, correndo o risco de contaminação por resíduos químicos perigosos para a saúde humana. Some-se a isso a grande demanda por combustíveis renováveis que estão ocupando grandes extensões de terras, competindo com os alimentos e agropecuária.
A agropecuaria e culturas de exportação, por sua vez, estão alargando as fronteiras agricultáveis em prejuizo da floresta nativa. Esse perverso efeito dominó vai afetando biomas inteiros com graves consequências.
Autoridades políticas tem tentado implantar uma reforma agrária mas acabam esbarrando em interesses econômicos de grandes latifundiários mais interessados no lucro imediato proporcionado por exportação de produtos de origem agrícola, muitas vezes subsidiados por interesses políticos.
Escândalos de corrupção e acontecimentos trágicos envolvendo irregularidades no campo, são noticiados constantemente nos meios de comunicação. De nada adianta esforços multidisciplinares coordenados para manejo da biotecnologia direcionada à produção no campo e na indústria, se não houver educação ambiental esclarecendo, aos interessados, que toda atividade, ecologicamente desequilibrada, gera consequências danosas a curto e longo prazos.
Todas as atividades humanas estão tão intimamente interdependentes que tentar implementar mudanças setoriais resultará em total fracasso, se não se modificar hábitos e tradições.

2.4 Proteção dos Recursos Hídricos

A escassez generalizada, a destruição gradual e o agravamento da poluição dos recursos hídricos de muitas regiões do mundo, ao lado da implantação progressiva de atividades incompatíveis, exigem o planejamento e manejo integrados desses recursos. Essa integração deve cobrir todos os tipos de massas inter-relacionadas de agua doce, incluindo tanto aguas de superfície como subterrâneas e levar, devidamente, em consideração os aspectos quantitativos e qualitativos. Deve-se reconhecer o caráter multissetorial do desenvolvimento dos recursos hídricos no contexto sócio-econômico, bem como os interesses múltiplos na utilização desses recursos para abastecimento de água potável e saneamento, agricultura, indústria, desenvolvimento urbano, geração de energia hidroelétrica, pesqueiros de aguas interiores, transporte, recreação, manejo de terras baixas e planícies e outras atividades. Os planos nacionais de utilização da água para o desenvolvimento de fontes de suprimento de água subterrâneas ou de superfície e de outras fontes potenciais, têm de contar com o apoio de medidas concomitantes de conservação e minimização do desperdício. No entanto, deve-se dar prioridade às medidas de prevenção e controle de enchentes bem como ao controle de sedimentação, onde necesário.(agenda 21 cap18)

O planeta terra só retém água no estado líquido porque está no lugar certo e tem o tamanho certo, o que faz com que sua força gravitacional e sua temperatura o tornam adequado para tal.
Os seres vivos são compostos, quase que exclusivamente, de água. Esta substância, por sua capacidade de evaporar e congelar facilmente, funciona como um veículo eficiente de nutrientes e dejetos. Seu ciclo hidrológico é um mecanismo maravilhoso destinado a irrigar o planeta. Ela é evaporada da superfície pelo calor do sol, dissipa-se na atmosfera e precipita sob a forma de chuva, fechando o circuito e cumprindo sua tarefa vital.
A água, porém, ao rolar pelo solo, tem o inconveniente de erodí-lo carreando muito de sua fertilidade. É tarefa do homem, sempre que possível, evitar esse efeito devastador não removendo a vegetação e, muito pelo contrário, protegê-la e incentivá-la.
Na agricultura, o preparo da terra para semeadura deve ser feito sempre em curvas de nivel e a irrigação artificial, quando necessária, terá que ser feita com cautela para evitar a exaustão dos cursos d’agua e, consequentemente, interferência no ecossistema.
A água, por sua excelente capacidade de autoregeneração, é vítima do abuso dos humanos que a sobrecarregam com dejetos poluidores e perigosos tanto para os seres vivos que habitam o meio aquático como o terrestre.
Felizmente, o homem está tomando consciência e, assumindo seus erros, procura saná-los. O tratamento de dejetos, antes de depositá-los no curso d’agua e o reaproveitamento de água residual, já é uma realidade mas precisa de muito mais investimentos. O mesmo ocorre com o tratamento da água para consumo humano, sobretudo para prevenção de doenças.
No que diz respeito à pesca, o homem ainda age como uma anomalia predatória. Há que se incentivar o cultivo e pesquisa no meio aquático.
Finalmente, é de se esperar, ansiosamente, que a era do petróleo, com seus desatres ecológicos, chegue ao fim e seja substituida por uma hidrogeração de energia elétrica mais eficiente.
















CONCLUSÃO

Depreende-se da análise bibliográfica e documental que há uma preocupação, a nivel mundial, com o destino do ser humano e de tudo o que o cerca.
O documento, Agenda21,principalmente, aborda, com muita propriedade, assuntos polêmicos que merecem atenção e inspiram mudanças e ajustes. Mas, na maioria das vezes, são assuntos de ordem material e técnica.
Há que se considerar, também, que o homem vem construindo, durante milênios, uma sociedade humana baseada em conceitos egoistas.
Muito se falou em poluição ambiental e se esquivou de comentários sobre a permissividade nociva que ofusca a moral e a ética como princípios convencionados para nortear o bem estar comum.
Uma convivência pacífica e equilibrada assemelha-se a um rio de aguas límpidas que necessita de atenção e manutenção. Qualquer desleixo imoral e antiético pode afetar esse equilíbrio.
Não se deve esquecer que o homem é o rei da criação e, como tal, tem que merecer o respeito, respeitando-se e aprendendo a respeitar o seu habitat.
Sabemos, por experiência, que a educação é a condição imprescindível para que haja o respeito.
Basta que analisemos a história para notarmos que as civilizações se destacam muito mais pela qualidade de sua cultura e educação do que pela força bruta.
Mesmo nos dias atuais convivemos com a realidade da dominação de povos mais adiantados sobre os grupos subdesenvolvidos e com baixos niveis de educação.
Acrescente-se aqui que os parâmetros educacionais estão sendo paulatinamente modificados, substituindo os conceitos de uma educação voltada só para a eficiência econômico-capitalista, por uma visão mais abrangente do ser humano como elemento integrado ao meio ambiente e também como um micro universo pessoal onde predomina a autodeterminação e autoestima.
Estas conquistas devem-se principalmente ao privilégio de, aprendendo com os erros, domesticar instintos.
Finalmente, atendendo ao objetivo principal deste trabalho, é necessário que se destaque a educação ambiental como elemento determinante na condução do destino da humanidade.
Quanto maior a capacidade de observar eventos ao seu redor, maior será a chance do homem encontrar o caminho certo rumo ao seu destino.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

A inteligência humana, limitada por sua lógica, não consegue compreender um universo material, sem limites. Os nossos conceitos lógicos se esvaem na vastidão do universo visível e dedutível. Somos, portanto, o centro do cenário que nos cerca. E o cenário que nos cerca provoca em nossa mente, através dos sentidos, toda sorte de sentimentos como amor, ódio, mêdo, soberba, etc.
Através de sucessivas gerações acumulamos um acervo de conhecimentos que nos tornam hábeis na arte de sobreviver.
Usando esses conhecimentos ainda não conseguimos detectar, em nossas vizinhanças, nenhum mundo que abrigue a vida como nós a conhecemos.
Numa escala cósmica, a humanidade é ainda muito jovem no contexto da criação. Sentimos que o homem está numa fase de transição impulsionado pelo desejo de corrigir erros e preparar um futuro melhor para sua descendência.
A dimensão espiritual do homem é o grande diferencial no admirável mistério da existência de todo o universo
Não se tem notícia de nenhuma civilização que prescindiu ou prescinde da fé em alguma divindade omnipotente.
O homem olha ao seu redor e sente a precariedade da transitória vida terrena.
Aqueles que se dedicam à ciência passam toda a vida estudando fenômenos, elaboram teorias que são, por sua vêz, estudadas por outros que os sucedem numa busca sem fim.
Baseados em experiências de laboratórios e em resultados de observação da natureza, já se chegou a concluir sobre o destino da matéria.
Essa finitude, tão inerente à lógica material que acaba tornando-a absurda, enseja o exercício da fé que, embora incompreensível, torna-se uma necessidade transcendente e única.






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WOLFE, Louis. Explorando a Atmosfera. Editora Fundo de Cultura S/A. Rio de Janeiro, 1961.

domingo, 25 de julho de 2010

EDIÇÃO DO AUTOR


Todos os direitos reservados
Contato: niltonjlopes@hotmail.com


Revisão: Maria Zilda de Carvalho Lopes


ISBN 277526
Lopes, Nilton José
Sequestro em S. Paulo
Romance policial
128 p.; 14 x 21



SEQUESTRO
EM
SÃO PAULO

NILTON JOSÉ LOPES


O gordo homem caminhou pela borda da piscina e, resmungando, foi sentar-se
na cadeira de vime suspensa de uma armação de ferro, no outro lado, numa sombra refrescante. Enxugou a testa com a palma da mão e ficou olhando os reflexos do sol ardente na água.
Num plano inferior, lá quase na entrada, as folhas do grande ipê estavam imóveis, atestando que o ar parado e quente ia tornar o dia sufocante mais tarde. O panorama era, sem dúvida, de uma beleza esplendorosa, onde cores e formas harmonizavam-se e, apesar de uma platéia rala e desinteressada, oferecia aquele espetáculo matutino.
Bem no meio do gramado que se estendia até os ciprestes que guarneciam as fronteiras daquele paraíso, brotava a casa alta e bela como um guardião da natureza a seu redor. As madeiras envernizadas davam-lhe um toque de nobreza e os vidros destacavam-se das paredes bancas, como olhos reluzentes.
O administrador, agora quase cochilando, não saberia explicar mas sentia que naquela manhã havia um silêncio diferente, estranho.
Era como se uma sombra deslizasse por ali cobrindo tudo com um medo opressivo. Tudo em volta parecia aguardar algo.
__ Seu João !
O grito despertou-o bruscamente de sua letargia.Era Izaura que caminhava na sua direção, trazendo na mão direita qualquer coisa parecida com um envelope, enquanto a mão esquerda se ocupava em transportar a inseparável vassoura.
__ Seu João, eu estava varrendo lá perto da entrada, ali perto da estátua do anãozinho, e vi, então, esta coisa enfiada dentro de um cipreste e achei que devia trazer pro senhor ver.
__ Dá cá, Izaura, deixa ver...Ave Maria , que coisa mais estranha! Quem será que colocou lá? Os entregadores de carta sempre apertam a campainha!
__ Pois é, Seu João, vai ver que é algum carteiro novo que ficou com preguiça de ficar esperando ser atendido e enfiou isso lá no cipreste do lado de fora mesmo...
__ É... pode ser!... Vamos ver o que tá escrito aqui. Você pode continuar o seu serviço, Izaura!
O administrador voltou a examinar o conteúdo de suas mãos. Era um envelope, desses tipo “oficio”, no qual havia sido escrito em letras maiúsculas e vermelhas, o nome do destinatário. Havia, também, a inscrição sublinhada, que dizia: “Confidencial”
O envelope tinha sido cuidadosamente colocado em um saquinho plástico.
O velho administrador, acostumado a fielmente defender os interesses da família, tentava, por todas as maneiras, coordenar as suas idéias a respeito daquela estranha aparição. Seu instinto dizia-lhe que algo estava por acontecer e, enquanto ruminava suas idéias, resmungava, como era de seu hábito. Achou que seria mais conveniente não mexer no pequeno invólucro e entregá-lo a dona Ester do jeito que fora encontrado. Levantou-se vagarosamente da cadeira, dirigiu-se com a costumeira pachorra em direção à entrada da casa. Subiu, pausadamente, degrau por degrau e ei-lo finalmente defronte da porta da biblioteca, onde costumava encerrar-se a patroa quando estava em casa. Bateu dois toques leves.
__ Dona Ester, a Izaura quando varria lá perto da entrada, achou esta carta enfiada perto do portão. Achei melhor entregar-lhe pessoalmente e não comentar com ninguém.
__ Por quê?
Os olhos estavam cravados nele.
__ Porque é uma maneira muito estranha de chegar uma carta aqui.Inda mais embrulhada assim, num plástico...
Depositou a carta na mão que lhe era estendida.Fez menção de retirar-se.
__ Espere, João!
Manipulou a carta, examinou um lado, depois o outro,decidiu abri-la.
__ Do lado de fora do portão dá para colocar uma carta no cipreste,João?
__ Dá sim, senhora. O cipreste é bem chegadinho no portão.
Ela abriu, em silêncio, o saquinho plástico. No destinatária lia-se em letras vermelhas e grandes: ‘Familia Gomes – Confidencial”
O rosto, antes aparentemente tranquilo, transfigurou-se de repente. Os sobrolhos cerraram-se, a boca ficou mais apertada e a suspeita de que algo estava por acontecer tomou conta dela. Desde a noite anterior estava com essa estranha sensação. Virou-se para a janela e olhou o envelope contra o sol, tentando descobrir o que continha. Rasgou um dos lados e de dentro caiu sobre a mesa uma cédula de identidade. A foto do Gomes, seu marido, parecia fitá-la de dentro do invólucro de plástico da pequena cédula. Apanhou a cédula para certificar-se de que era realmente do marido. Confirmado! Era realmente do Gomes.
Retirou o papel de dentro do envelope e leu. O texto não tinha formalidade nenhuma. Não era exatamente uma carta. Mais parecia uma sentença. Dizia o seguinte:

1º - O refém está em perfeitas condições físicas, o que perdurará, enquanto forem seguidas, à risca, as instruções.
2º - Não temos idealismo político e não fazemos negociações. Este é o único aviso.
3º - A publicidade em torno do seqüestro deve ser deixada para depois de terem recebido de volta o refém. Qualquer comentário será causa suficiente parta o cancelamento da operação, com a conseqüente eliminação do refém.
4º - O refém somente será liberado após constatarmos que não houve mínima falha no plano (o que dependerá, em grande parte, do seu bom senso, cautela e, sobretudo, calma) e também após constatarmos que o numerário atende as nossas medidas de segurança, tomando para tanto o tempo que nos for necessário e usando de elementos e métodos especiais que poderão culminar com a eliminação instantânea do refém, no caso de havermos sido enganados.
5º - Ao receberem este aviso, se tomarem a medida que normalmente se toma em tais casos, fatalmente denunciar-se-ão.
6º - Ao concordar em pagar o resgate, coloquem anúncio no jornal “São Paulo”, nos seguintes termos: “ Para os nascidos no mês de Dezembro, o jantar está servido”.
Seguiremos edições de três dias, após os quais, em caso negativo, cancelaremos a operação.
7º - O valor do resgate é de R$ 10.000.000,00 que poderão ser pagos tendo como portador pessoa da família, em notas não seriadas, acondicionadas em menor volume possível dentro de uma maleta, de acordo com instruções abaixo. Não apanharemos o resgate se notarmos algo de estranho em qualquer sentido, tendo como conseqüência o cancelamento da operação.
8º - Esteja com a importância em local, data e hora a serem fixados , que será apanhada por elemento que está sendo pago unicamente para apanhá-la e desconhece o plano e seus mentores, o qual se defrontar-se com situações de antemão identificadas como adversas, tem instrução de sinalizar-nos utilizando-se de um método especial sendo que, com tal movimento, inconscientemente, privar-se-á da própria vida. Em tal hipótese cancelaremos a operação.


O olhar da mulher estava agora parado sobre o texto à sua frente, sem estar dirigido para palavra alguma. O rosto lívido, a boca entreaberta, a cabeça curvada sobre o peito, os braços deixados sobre a mesa.
No íntimo sentia vontade de gritar, esbravejar, agredir tudo que encontrasse pela frente. Não podia aceitar a condição de vítima indefesa.
Mas, do outro lado estava a vida do Gomes. Aquele papel à sua frente podia ser a sua sentença de morte. Ela própria nunca dera o devido valor ao seu relacionamento com o Gomes mas, naquelas circunstâncias, descobrira o que realmente sentia por ele.
Bastou um olhada nas condições que lhe impuseram para, como mulher inteligente que era, perceber que não tinha alternativa. Ergueu novamente a cabeça, instintivamente ajeitou os cabelos e ficou ali sentada por alguns momentos contemplando a cena à sua frente. Aquele maldito papel branco, portador daquelas humilhantes condições, estava investido do poder sobre a vida e a morte de seu marido.
Sentiu uma fadiga inexplicável como se tivesse passado a noite e a manhã inteiras a caminhar. Levou um tremendo susto quando ouviu o interfone.
__ Dona Ester, o almoço está servido; ou a senhora prefere almoçar na biblioteca?...
__ Não, Durval. Não vou almoçar.
Apanhou a carta e meteu-a novamente dentro do envelope. O plástico que envolvia o envelope, destinou- o ao cesto de lixo.
Subitamente lembrou-se :
__ E se a polícia necessitar deste plástico ?...
Retirou-o do cesto e resmungou para si mesma:
__ Oh, meu Deus, Eu nem sei de vou procurar a polícia...
Colocou tudo dentro da gaveta e trancou. Apertou o interfone e ditou:
__ Durval, chame o Dr. Martinho.
__ Sim,senhora.
Dirigiu-se a seu quarto, tendo por duas vezes que se apoiar na parede do corredor, para não cair. Sentia ânsias de vômito, a boca amargava como fel e a cabeça parecia que ia estourar. Mal alcançou a cama, deixou-se cair nela pesadamente e puxou o cobertor. Sentia calafrios por todo o corpo. Não conseguia absolutamente coordenar as idéias.




O carro do Dr. Martinho aproximou-se lentamente e estacionou, como sempre, junto ao ipê.
O médico caminhou tranquilamente pelo belo jardim e sentou-se ao lado do gordo João que expunha-se ao sol como um jacaré.
__ Então, João, quais as novidades?
__ Novidade nenhuma não, doutor. Aqui tudo é parado.
__ A Ester mandou me chamar.Ela está doente?
__ É... Durval me disse que ela nem quis almoçar.
O médico permaneceu calado durante alguns momentos, depois olhou para o relógio e dirigiu-se para a entrada da casa. Quando entrou no quarto, dona Ester já havia recobrado bastante de sua habitual serenidade mas apresentava ainda uma fisionomia bem abatida.
__ Boa tarde, Ester. O que houve?
A mulher passou as mãos pelo rosto e soltou um suspiro.
__ Uma desgraça, Martinho, uma desgraça! Certas coisas acontecem na vida da gente como um tufão...passam, arrasam tudo, depois vão embora e deixam-nos a apreciar os destroços.
O médico olhava para ela com interesse e curiosidade.Percebeu logo que algo grave havia ocorrido, porque aquela mulher não era dada a teatralismo e, além disso, era preciso um impacto muito grande para prostrá-la naquele estado.
__ Você já tomou alguma coisa, Ester?
__ Só um comprimido para dor de cabeça, que estava insuportável
Tomou-lhe a pressão e fez uma careta com o resultado.
__ Vou dar-lhe um calmante. Você vai dormir um pouco.Se você quiser confiar-me o seu problema, posso tentar ajudá-la. Asseguro-lhe, porém, que, na sua situação, você não tem condições de resolver problema algum.
__ Foi mais para isso mesmo que eu o chamei aqui, Martinho. Eu preciso de sua ajuda e nós vamos ter que agir rápido e com muita cautela.
__ De que se trata? __ Perguntou o médico.
__ Martinho, eu vou tentar explicar, em poucas palavras, o que houve. Ontem, um pouco antes do jantar, recebi um telefonema do Gomes avisando que não vinha para casa porque iria a Campinas resolver negócios. Sabe como é o Gomes...ele nunca explica direito.
Pois bem, hoje, pela manhã, o João me aparece com uma carta, dizendo tê-la encontrado perto do portão de entrada, no cipreste. Quando abro o envelope, dou de cara com a cédula de identidade do Gomes e uma carta, ou melhor, uma intimação que aqui está e quero que você leia e me ajude a encontrar uma solução porque eu simplesmente não sei o que fazer.
Passou o envelope para as mãos do médico e ficou olhando-o em silêncio enquanto lia.
Quando terminou de ler, tendo ainda o papel diante de si, o médico exclamou:
__ Que barbaridade! Isto é o cúmulo!
Dona Ester, agora recostada no travesseiro, manifestava-se cada vezmais nervosa. Mantinha um braço cruzado sobre o peito, enquanto que, com a outra mão, não parava de comprimir os lábios entre o polegar e o indicador. Corria o olhar por toda a sala, como uma desvairada, sem olhar para nada.
O médico retirou de dentro de uma valise uma seringa e uma ampola com um líquido amarelado e foi lhe injetando rapidamente.
__ Não vai demorar muito e você vai dormir, Ester. Deixa esse caso comigo.
Diante dessas palavras, acalmou-se um pouco. Aquele homem era amigo íntimo da família há muito tempo e dona Ester sentiu-se mais segura sabendo ter ao lado uma mente empenhada na solução daquele caso, uma vez que a sua, pelo menos no momento, não conseguia coordenar nada. Ajeitou o travesseiro, apoiou nele a cabeça, puxou o cobertor até o pescoço e, pouco a pouco, viu desvanecer-se a figura do médico num vulto branco e amorfo. Havia dormido.
O médico sabia agora que a rapidez era essencial e saiu apressadamente. Atravessou o jardim em direção ao carro e encontrou o João no mesmo lugar que o deixara minutos antes. Sem mesmo parar de andar, ditou-lhe:
__ João, a Ester está dormindo agora. Mais tarde mande preparar-lhe uma refeição leve.
__ Não é nada grave não, dr.?
__ Oh não, é coisa a tôa. Passa logo. Mas evite comentários, ouviu?
O carro afastou mais depressa do que normalmente costumava andar.
Enquanto dirigia, o dr. Martinho procurava lembrar de alguém que pudesse ajudá-lo a elaborar um plano de ação. Sabia, entretanto, que a responsabilidade que tomara a seu encargo era enorme. Afinal, era a vida do amigo que estava em jogo. Qualquer deslize de sua parte, qualquer atitude incauta, poderia ser fatal. Sabia perfeitamente que ainda não deveria levar o caso oficialmente ao conhecimento da polícia, pois existia a hipótese de elemento ou elementos da polícia estarem envolvidos e não se poderia prever a reação deles se tomassem conhecimento das investigações.
O sinal estava vermelho. Parou, conservando a mão direita sobre a bola do câmbio, enquanto o braço esquerdo era apoiado na porta. A cabeça fervilhava de idéias...
Verde! Engrenou e saiu. Deu um leve tapa com a palma da mão no volante, manifestando uma certa impaciência.
__ É...__ pensou. __ É um caso extremamente melindroso. Vou ter que apelar para um cara que esteja afeito a essas coisas, para que ele me ajude a analisar essas condições e decidir se compensa ou não procurar a polícia. Talvez o mais sensato seja levantar o dinheiro, pagar o resgate e esquecer o assunto.
Quanto eles haviam pedido mesmo?... Ah sim, dez milhões!
Pelo amor de Deus... levantar dez milhões em três dias! Esses caras são paranóicos! Não se tem mais segurança atualmente. Não se pode sair de casa tranqüilo. Sabe-se lá se volta
Ia assim remoendo suas idéias, quando lembrou-se daquele delegado cujo filho ele fizera tudo para salvar há algum tempo atrás. Lembrou se ainda da expressão de gratidão do homem. Como era mesmo o nome dele? __ pensou __ Ah, sim... Wilson! É isso mesmo...Wilson era o nome do homem...Vou até o hospital e lá me informo de sua localização...Esse Wilson vai me ajudar!...

Entre as pessoas do relacionamento da família existiam elementos bastante capacitados a opinar a respeito e, principalmente, de inteira confiança. Nenhum deles, porém, oferecia condições de analisar o problema sob um prisma técnico e, se existisse uma pequena falha naquele cerco, somente um técnico experimentado seria capaz de localizá-la.
Deveria haver aquela falha... Não existe um crime perfeito! Pagar o resgate, sem maiores investigações seria derrotismo.

Fazia-se mister iniciar outra operação em paralelo...Levantar o valor imposto como resgate. Era uma operação difícil, sem dúvida. Afinal eram dez milhões em três dias!... O primeiro passo seria analisar a situação financeira da família. Quem poderia dar essa informação?... O dr. Augusto, naturalmente!




__Martinho! Que bons ventos o trazem por estas bandas?Você anda sumido, velho! Ou são clientes demais ou dinheiro demais...
O médico ia responder quando foi interrompido em seu intento.
__ Wilma, avisa, por favor, o engenheiro Paulo que eu quero falar com ele.
Ajeitou os óculos sobre o nariz, num gesto rotineiro, apanhou o dr. Martinho pelo braço e levou-o para sua sala, esquecendo um livro sobre a mesa da secretária.
__ Chega pra cá, velhote. Que é que você ia me dizer, mesmo?
__ Você estava me perguntando que bons ventos me trouxeram aqui mas posso adiantar–lhe que o que me traz é mais uma tempestade, viu, Augusto!
__ Não diga, Martinho. Então as coisas estão pretas,é? Qual é o galho, hein?
Abriu a gaveta, mergulhou nela a mão esquerda, a qual voltou munida de um charuto que foi logo acendido, exalando um cheiro forte.
O dr. Martinho havia tirado um lenço do bolso de trás da calça e com ele enxugava a umidade que cobria sua testa. Havia procurado, até ali, disfarçar ao máximo a tensão nervosa que o oprimia. Mas aquelas intermináveis horas de aflição estavam começando a minar suas forças. Necessitaria logo de um repouso. Mas havia, ainda, muito o que fazer.
O dr. Augusto percebeu que havia algo de errado e fitou o homem à sua frente com um ar preocupado. Deixara de lado o seu habitual bom humor, que proporcionava-lhe a capacidade de brincar com tudo e com todos.
__ Aconteceu alguma coisa, Martinho?
__ É...Eu quero que você dê uma olhada nisto. Depois eu comento.
Havia tirado do bolso o envelope que passou ao outro.
__ Isso apareceu, hoje de manhã, no jardim da residência do Gomes__ concluiu.
O outro havia prendido o charuto entre os dentes e ocupava-se em retirar o conteúdo do envelope com a pressa própria de todo executivo. Leu tudo em silencio, enquanto o dr. Martinho estivera fumando um cigarro.
__ Quem é que foi seqüestrado?
__ Ah, sim, esqueci de falar. Havia aí dentro a identidade do Gomes.
__ Diabo! O Gomes seqüestrado! É o fim da picada...O que você sugere?
__ Já falei com um delegado amigo que atendi recentemente no hospital. Vou entrevistar-me com ele, na sua residência, às seis horas. Eu gostaria que você também fosse.
O dr. Augusto olhou para o relógio.
__ Onde mora o cara, Martinho?
Retirou o cartão do bolso e leu:
__Rua dr. Eustáquio Lemos, 225
__ Onde fica isso?
__ Alto de Santana, parece-me.
__ Tem aqui um guia da cidade. Certifique-se enquanto dou algumas instruções ao engenheiro Paulo.
Saiu apressadamente enquanto o dr. Martinho folheava o guia a fim de se orientar melhor para atingir a casa do Wilson. Com muita dificuldade conseguiu localizar a rua no mapa. Sua cabeça já estava começando a doer. Foi até o bebedouro, no corredor, e engoliu um comprimido. Tinha que manter a calma e evitar qualquer incômodo físico para enfrentar os próximos dias.
Não tardou muito e Wilma veio avisá-lo que o dr. Augusto estava esperando na portaria. Passou a mão no guia e dirigiu-se para lá.
Encontrou o Dr. Augusto já dentro do carro que, prontamente, abriu-lhe a outra porta.
__ Oh, Deus! Esqueci a carta em cima de sua mesa
__ Essa não, Martinho!
Nem chegou a ouvir a exclamação do dr. Augusto. Já se precipitara de volta e, correndo, alcançou a sala sem deixar, entretanto, de despertar a curiosidade dos funcionários.
De posse da preciosa carta e, já de volta ao carro, disse simplesmente:
__ Vamos!
__ Para onde?
__ Alto de Santana. Essa rua é uma travessa da avenida Diametral
Viajaram durante algum tempo, cada um ruminando as próprias idéias, quando o dr. Augusto quebrou o silêncio.
__ Quem mais sabe desse assunto, Martinho?
__ Além de dona Ester, ninguém.
__ Por que é que você não decidiu levar logo o caso, oficialmente, à polícia.
__ Sei lá viu, Augusto. Eu fiquei meio preocupado com aquela cláusula das condições...
__ Cláusula das condições?__ interrompeu o outro.
__ É, Augusto. A cláusula desta carta que diz, ou melhor, ameaça: “ Se tomarem a medida que normalmente se toma em tais casos...” Qual é a primeira medida que a gente toma em tais casos? Vai à polícia, é claro! Daí a gente pode deduzir que os seqüestradores contam com elementos ligados à polícia, não?
__ É...Pode ser... Talvez.
O dr. Augusto tentava disfarçar mas estava visivelmente preocupado. Impacientava com os sinais vermelhos, arrancava aos trancos e tendia a exagerar na velocidade.
__ Parece que o prazo deles é de três dias não é, Martinho?
__ É...Agora não sei se eles estão contando o de hoje.
__ E nós vamos ter que levantar dez milhões em notas não seriadas, usadas, e aquela papagaiada toda, em três dias hein, Martinho?
__ Pois é, meu chapa, você está com um problemão...
O dr. Augusto olhou-o pelo canto dos olhos, fez uma careta e achou melhor não dizer nada.





Depois de uma série de informações conseguiram finalmente localizar a casa do Wilson. Era uma casa pequena,simples mas parecia aconchegante, como depois constataram ao entrar, convidados pela esposa do Wilson, que logo reconheceu o dr. Martinho. O marido não tardaria, informou ela.
De fato não demorou muito e ouviram ruído de carro que entrava na garagem. Alguns momentos depois estava na frente deles o Wilson.
Era um sujeito um tanto magro, bem trajado, aparentando seus 38 anos.
Inspirava confiança à primeira vista. Estendeu sorridente a mão ao dr. Martinho.
__ Como tem passado,dr. Martinho?
__ Bem, obrigado, Wilson. Este é o dr. Augusto.
__ Satisfação em conhecê-lo, dr. __ disse-lhe enquanto apertava-lhe a mão.__ mas... sentem-se, por favor...vou ver se arranjo alguma coisa para tomarmos...Whisky, pode ser?
Assentiram com a cabeça
Enquanto o anfitrião ia à procura de gelo, Martinho e Augusto conversavam:
__ Como será que está a Ester? Eu a havia deixado dormindo.
__ Qual foi a reação dela quando recebeu isso?
__ Eu não presenciei. Quando cheguei, porém, atendendo ao seu chamado, estava prostrada na cama sem coragem para nada.
__ É...Eu imagino.
Naquele momento Wilson voltou com algumas pedras de gelo nos copos. Serviu-os de bebida e deixou a garrafa na mesinha de centro.
__ Como é, Wilson? E o garotão,tá bom , não?__ perguntou o dr. Martinho.
__ Tá uma beleza,dr. Até não está aqui hoje. Ficou na casa da avó. A gente até estranha o silêncio que fica aqui, quando acontece isso.
__ Você só tem esse filho?
__ Não. Tenho uma garotinha, também.
__ O dr. Martinho disse-me que o Sr. É delegado de polícia,,,__ falou o dr. Augusto.
__ sim. No momento estou na décima lá na Rua Ouro Verde.
__ Wilson,__disse o dr. Martinho __ nós estamos necessitando de seus préstimos, como delegado, para orientar-nos na solução de um problema bastante melindroso.
__ Pois não, dr. Estou à sua inteira disposição. O que estiver no meu alcance, eu o farei sem medir esforços para tal.
__ Pois bem, Wilson. Ocorre o seguinte...
O dr. Augusto observava,em silêncio,as reações do delegado, enquanto o dr. Martinho expunha-lhe o que acontecera naquele dia. Quando o delegado recebeu das mãos do dr. Martinho a carta e começou a lê-la, interrompeu imediatamente a leitura, levantou-se e chamou-os pedindo que o acompanhassem a uma saleta que fizera de gabinete e biblioteca.

__ Senhores, eu já percebi a gravidade do caso só de olhar, de relance,para este documento. Queiram, por gentileza acompanhar-me. Nós vamos analisar isto com calma e não devemos ser interrompidos.
Foi até a cozinha e instruiu a esposa para que não fossem interrompidos.
Quando entraram na saleta, a porta foi fechada e foram convidados a sentarem em confortáveis poltronas. Era o tipo do lugar discreto e aconchegante. Bem iluminada por amplas janelas e, alvas cortinas atestavam o carinho de uma esposa zelosa. O piso era forrado por um tapete macio e as prateleiras, que iam até o teto, estavam abarrotadas de livros. O Wilson era um advogado que sempre gostou de estar pesquisando e passava horas e horas naquele gabinete. A enorme mesa de centro mais parecia um espelho de tão bem limpa e polida. Ele instalou-se na poltrona atrás da mesa, removeu a pequena pilha de livros que estava sobre ela, puxou depois a luminária e acendeu-a focalizando o facho de luz sobre o papel que colocara à sua frente.
O dia estava se findando e a luz natural se extinguindo. Tudo aquilo fora feito com gestos tão precisos e calmos que mais parecia uma cerimônia. De fato, o Wilson, quando estava prestes a executar qualquer trabalho, executava uma verdadeira cerimônia. Era um homem metódico e costumava deixar sobre a mesa somente o que se referisse ao caso em que estava trabalhando, mesmo assim, em perfeita ordem. Achava que, agindo assim, conseguia concentrar toda a atenção para o caso ao mesmo tempo que facilitava o acesso às informações rapidamente.Quem visse aquele homem trabalhando saberia logo que se encontrava diante de um homem organizado.
E foi assim que, após alisar o papel colocado à sua frente com as bordas perfeitamente paralelas às bordas da mesa, olhou para os dois “clientes” e, com um gesto, convidou-os a se aproximarem mais.
__ Bem, dr. Martinho e dr. Augusto, já que os senhores pediram a minha opinião a respeito,vamos, então, analisar o único elemento de que dispomos, no momento, neste caso que, por si só, por sua constituição ou ainda , por seu gênero, merece um estudo cauteloso das possibilidades de uma reação segura e bem sucedida.
Aquele homem havia se transformado completamente.Já não era mais o Wilson amável e quase ingênuo que conheceram, momentos atrás, na sala de estar. Ali, diante deles, estava um homem compenetrado de seu trabalho e o dr. Martinho sentiu, aliviado, que grande parte do peso que o esmagava tinha sido dividido com aquele delegado.
__ Mas...Wilson,__ falou o dr. Augusto__ nós sentimos muito incomodá-lo a estas horas. Afinal de contas, você já trabalhou o dia todo, porém o caso não admite perda de tempo, como você mesmo pode notar.
__ Não há dúvida que a mente que idealizou tudo isto, procurou cercar-se de toda segurança possível, no que ter aplicado um bom tempo. Pois bem, vamos analisar juntos agora, item por item, procurando atentar para os detalhes.
Leu em voz alta
__ Primeiro item – “ O refém está em perfeitas condições físicas, o que perdurará enquanto forem seguidas, à risca, as instruções.”
Até aqui nada de novo. É natural que eles usem todos os argumentos de intimidação. Eles próprios estão com medo e procuram impedir uma reação. Cumpre-nos não nos intimidarmos. Esperamos uma distração que, ao se manifestar, será usada contra eles.
__ É... Parece sensato __ concluiu o dr. Martinho.
__ Mas, por outro lado, poderíamos perguntar-nos __ continuou o Wilson __ se, com astúcia e habilidade, não poderíamos provocar esse oportuno momento de distração da parte deles? Poderíamos tentar cozinhá-los em banho maria talvez, conseguindo, assim, mais tempo para investigações. Ou talvez provocar um incidente qualquer que aparentemente não afetasse a segurança da estrutura do plano deles e nem tampouco tornasse contraproducente ou vulnerável a operação, obrigando-os assim a negociar e oferecer pistas.
Mas neste caso, pelo que tive oportunidade de ver, eles não nos deixam alternativas. Basta uma olhada pelos outros itens e a idéia de criar situações falsas, no intuito de ganhar tempo ou observar suas reações, seria inibida de imediato.
Vejam bem, como eu disse anteriormente, eles conseguiram elaborar um sistema em que a segurança da operação está em primeiro lugar. Eu digo isto porque em toda a minha carreira, lidando com criminosos, notei que a maioria deles tem uma coisa em comum. Eles deixam que a euforia tome conta deles. Começam a desfrutar antecipadamente de situações imaginárias que viverão após o sucesso de sua ação criminosa. Não aceitam, absolutamente, a hipótese do aparecimento de um contratempo e, por assim dizer, não olham o outro lado da moeda. Evitam imaginar um fracasso.
O que agrava a situação é o fato de termos como antagonistas,indivíduos frios e metódicos que parecem não estar dispostos a negociar sob nenhuma circunstância. Não fazem concessões. Tudo tem que ser feito em tempo determinado, dentro do esquema deles. Estamos lidando com uma bomba relógio. Não temos tempo a perder.
Parece que, com referência ao primeiro item, é o que consegui ver.
Algum dos senhores tem alguma observação a respeito, ou mesmo discorda do meu ponto de vista?
__ Oh não,__ disse o dr. Martinho __ eu concordo plenamente com você.
__ Eu tenho uma pequena dúvida.__ Falou o dr. Augusto enquanto ajeitava-se melhor na cadeira__ Há um pequeno ponto que você não abordou. Aí diz: “ O refém está em perfeitas condições físicas” Como é que vamos saber?...
__ A mesma pergunta faço eu __ exclamou o Wilson.__Nós simplesmente temos que partir da premissa de que o refém está, de fato, em perfeitas condições físicas.
__ Ué, poderíamos exigir uma prova, não Wilson?
__ Certo. Vamos supor que poderíamos contar com um leve vestígio de sensatez da parte dos seqüestradores, a ponto de aceitarem uma exigência nossa... Resta saber, agora, como entrar em contato com eles para fazer essa exigência...
__ Por intermédio da imprensa, ora! Eles devem estar atentos a ela, não? __ concluiu o dr. Augusto.
__ Essa atitude, dr. Augusto, iria colidir frontalmente com as instruções do terceiro item. Veja bem: “A publicidade em torno do seqüestro deve ser deixada para depois de terem recebido de volta o refém. Qualquer comentário será suficiente para o cancelamento da operação com a conseqüente eliminação do refém.”
A atitude proposta colidiria também, se bem que com menor gravidade, com o segundo item que diz:” Não temos idealismo político e não fazemos negociações. Este é o único aviso”

O dr. Augusto compreendera que não havia a menor possibilidade da iniciativa de um contato. O Wilson estava com a razão. Seria uma temeridade! Abaixou a cabeça e, com os cotovelos apoiados nos braços da poltrona, permaneceu, por alguns instantes numa posição que denotava um esforço para refletir com clareza.O dr. Martinho olhava pensativo para o chão e não se sentia disposto a fazer comentários. O Wilson contemplou aquele quadro desanimador e tentou animá-los.
__ Não devemos, entretanto desanimar logo de cara. Nós ainda não vimos todas as condições.Quem sabe há uma brecha?
Concordaram e prosseguiram com a análise.
__ Vejamos agora __ disse o Wilson __ o que diz o segundo item.” Não temos idealismo político e não fazemos negociações. Este é o único aviso”.Que é que podemos deduzir daqui?
A primeira parte “Não temos idealismo político”, é puro medo de que encaremos a situação como subversiva da ordem política e, consequentemente seja reprimida com muito mais rigor. Eles sabem que as autoridades militares são implacáves no combate a esse tipo de ação. A simples hipótese de que as autoridades encarem a situação como subversiva, apavora-os e levou-os a afirmar-nos antecipadamente que não é verdade. Pra dizer a verdade eu acredito que eles, de fato, não estão vinculados a nenhuma organização terrorista com fins subversivos. Eles são mesmo ladrões dispostos a tudo, até a matar.

O dr. Martinho havia acendido um cigarro e cedera um ao dr. Augusto que, no momento, não dispunha de nenhum dos seus fedorentos charutos.
O Wilson continuou __ Na segunda parte do item “Não fazemos negociações. Este é o único aviso”, eles querem dizer-nos: Nós queremos assim e pronto! Assunto encerrado. Não aceitamos contra-ofertas, sugestões, imposições,pedidos, nem ameaças nos intimidarão. Para tanto, não lhes damos nem condições de se manifestarem. Finalizando, fazem questão de avisar-nos que a bomba-relógio está ligada ao tempo que não pára de passar. Como eu disse anteriormente este é um crime diferente de todos no gênero. Em um seqüestro, normalmente há aquela série de contatos. Mas neste não. Eles simplesmente nos avisaram do ocorrido. Impuseram as condições e deixaram-nos dois movimentos: pagar o resgate ou condenar o refém à morte.

O dr. Martinho passou a mão pela cabeça, num gesto de desespero e limitou-se a observar:
__ É... não há dúvidas que são perigosos. São como feras. Atacam silenciosamente e com decisão deixando à vitima a única condição de presa, impossibilitada de reagir.
__ Mas, às vezes, a própria força gerada pela fúria da fera proporciona o meio para destruí-la. __ disse o Wilson __ vamos analisar o restante.

Alisou mais uma vez o papel intensamente iluminado pela lâmpada fria.
__ Passemos agora ao item seguinte...Aqui no terceiro item eles dizem:
“A publicidade em torno do seqüestro deve ser deixada para depois de terem recebido de volta o refém. Qualquer comentário será causa suficiente para o cancelamento da operação com a conseqüente eliminação do refém”.
Esta condição é uma das principais colunas de sustentação, por assim dizer, do esquema de segurança da operação. Como os senhores podem ver, o item está dividido em duas partes que se completam. Sugerem algo e, ao mesmo tempo, deixam transparecer de maneira clara, objetiva, usando de expressões contundentes, sua intenção de reagir violentamente no caso de não ser satisfeita sua vontade. Por outro lado, mais uma vez, podemos destacar um ponto positivo a nosso favor neste item que vem justamente responder à questão oportunamente levantada pelo dr. Augusto acerca da integridade física do refém. Notem que mencionaram naturalmente : “depois de terem recebido de volta o refém” . vamos alimentar, então, a otimista hipótese de que a integridade física do refém foi respeitada.
Como condição básica, as normas deste item deverão ser respeitadas religiosamente. Eu quero crer que somente nós e a esposa do seqüestrado temos conhecimento do ocorrido,não?
__ Os empregados da casa, naturalmente, sabem que foi encontrada essa carta no jardim da residência.__ afirmou dr. Martinho__ evidentemente que vão relacionar o fato com a súbita doença de dona Ester, mas penso que não devemos temer nada, pois pedi ao administrador da manutenção da residência, sigilo absoluto em torno do assunto, o que, naturalmente, se estenderá, por seu intermédio, aos outros empregados.
__ Perfeitamente, dr. Martinho. __ continuou o Wilson __A condição imposta neste item é bastante estranha...Normalmente todo malfeitor se sente lisonjeado com a reação gerada pelo seu ato maléfico. Ele sente que atingiu seu objetivo e experimenta uma vaidade mórbida com isso. É como o artilheiro que, ao observar o clarão a milhas de distância, tem certeza que atingiu o alvo visado. No caso do malfeitor, esse clarão chegar-lhe-á à percepção por intermédio da imprensa ou qualquer outro meio de comunicação de massa.Neste caso, porém, a coisa é diferente. Esses malfeitores são especiais, são um caso à parte e, por isso, merecem uma atenção especial. São frios e calculistas. Eles querem somente segurança para agir. Sabem perfeitamente que a imprensa é uma grande aliada da polícia pois, ao divulgar um fato, pode perfeitamente acarear testemunhas anônimas que porventura presenciaram a qualquer fase da operação mas permaneceram como testemunhas potenciais a espera da confirmação oficial de algo estranho que tenha ocorrido.
Essa confirmação, ao se manifestar, provocará imediatamente na testemunha, uma natural curiosidade tendente a se transformar numa vontade incontida de se projetar aos olhos da sociedade,vontade essa que só será saciada pela iniciativa direta ou indireta de prestar um depoimento que poderá vir a ornar-se útil ao trabalho de investigação e pernicioso à operação maléfica.
Em suma, eles querem que a operação transcorra na mais completa obscuridade para, somente depois quando já se julgarem isolados por uma considerável distância física e cronológica, explodir aos olhos do público como fogos de artifício.

O dr. Augusto mais uma vez ajeitou-se na cadeira e pigarreou, enquanto o Wilson olhou-o atentamente, esperando pela sua observação.

__ Não... pode continuar,Wilson, as suas deduções dispensam qualquer comentário.

Sorriram os três e o Wilson continuou.

__Pois bem, com as condições impostas neste terceiro item, eles visaram mais uma vantagem indispensável; o esfriamento de pistas.
O dr. Martinho e o dr. Augusto adotaram uma atitude de espanto e curiosidade.
__ Sim...__continuou o Wilson __ eu não vou novamente discorrer sobre isto, visto que nada mais é do que o que acabei de falar sobre as testemunhas potenciais. Ao estancarem, por intermédio do silêncio, o depoimento de testemunhas potenciais,eles estarão protelando-o para vir à tona somente após a entrega do resgate e devolução do refém. Nessa ocasião, porém, muitas testemunhas potenciais já se desinteressaram pelo fato que presenciaram ou mesmo alguma que, porventura, vir a depor,já não se lembrará, com exatidão, de detalhes que seriam de grande valia. Nesse caso, o tempo se encarregou de esfriar ou mesmo apagar uma possível e valiosa pista.
Eu temo estar me alongando demais nas explanações e estar provocando nos senhores um certo mal estar...
__ Oh não, Wilson __ interveio o dr. Augusto __É natural que a concentração provoque um certo cansaço mas isto é absolutamente necessário. Temos que usar o nosso escasso tempo da maneira mais útil possível e eu, sinceramente, penso que o estamos fazendo.
__ Você pode deixar de lado seus temores __ disse o dr. Martinho __ Nós é que deveríamos nos desculpar por estar roubando parte de seu tempo que, por direito, seria usado para repouso.
__Quanto a isso, dr. Martinho, podem ficar tranqüilos. Esta atividade é o meu passatempo preferido. Vamos continuar então. Passemos a examinar agora o quarto item da charada que os nossos amigos nos propuseram. Aqui diz: “O refém somente será liberado após constatarmos que não houve a mínima falha no plano (o que dependerá,em grande parte, de seu bom senso,cautela e, sobretudo, calma) e, também, após constatarmos que o numerário atende ás nossas medidas de segurança, tomando, para tanto, o tempo que nos for necessário e usando de elementos e métodos especiais que poderão culminar com a eliminação instantânea do refém no caso de havermos sido enganados”
Este item, a exemplo do item anterior, deixa transparecer claramente que a bomba relógio permanecerá ainda ligada por algum tempo após a consumação das exigências deles, com a entrega do resgate pedido. Isso vai exigir da nossa parte exatamente aquilo que estão nos propondo: bom senso, cautela e calma. Somente munidos desses três ingredientes conseguiremos cumprir nossa parte na operação de tal maneira a não provocar algum incidente que possa apresentar-se aos seus olhos como um esboço de reação, o que viria a acarretar conseqüências fatais. Eles fizeram a coisa de tal modo a deixar-lhes sempre uma saída. Ocupam,durante toda a operação, posições estratégicas a permitir-lhes uma rápida retirada do cenário quando este vier a tornar-se-lhes hostil ou simplesmente confuso. Estão sempre atentos para nunca se deixarem cercar...
__ Quanto a isto não há dúvida __ aparteou o dr. Augusto.__A gente nota que tônica em todos os itens sempre é: “cancelamento da operação com a conseqüente eliminação do refém”.
__ Pois é, __continuou o Wilson __ é notável a sua atitude. Nunca se deixam envolver totalmente e conservam sempre o gume afiado do seu ódio sobre a cabeça do refém, preferindo perder todo o trabalho aplicado numa operação a arriscar-se frente a uma dúvida por pequena que seja. Neste caso impor-nos-iam vingativamente a perda do refém.
__Poderíamos, entretanto, apelar para recursos técnicos a fim de facilitar as futuras investigações...
__ Como assim?__ perguntou o dr. Martinho.
__ Poderíamos, por exemplo, tentar marcar as notas do dinheiro do resgate, usando algum processo químico, talvez...Eu não conheço bem esse assunto mas parece que a técnica conseguiu desenvolver um processo assim.Ou poderíamos ainda instalar um dispositivo eletrônico no fecho da maleta portadora do dinheiro, quem sabe, para seguirmos sua rota de fuga. Existem diversos artifícios que podem ser usados. Acontece,porém, que, no caso, eles representam um perigo enorme além do inconveniente de virem a tornar-se ineficientes com sua ação sabotada pelo fator tempo. Notem bem o que eles dizem: “tomando, para tanto, o tempo que nos for necessário e usando de elementos e métodos especiais que poderão culminar com a eliminação instantânea do refém no caso de havermos sido enganados.”
__ Que é que eles querem dizer com elementos e métodos especiais?__ perguntou o dr. Augusto.
__ Sabe Deus!__respondeu o Wilson.__ pode ser uma farsa mas também pode ser que desenvolveram um sistema inédito de certificar-se que não os estamos enganando.
__ A julgar pelo plano maquiavélico que elaboraram, eu não duvido muito,não.__disse o dr. Martinho.
__O senhor tem razão,dr.__ concordou o Wilson o esconderijo onde guardam o refém, além de ser feita praticamente ao acaso, sem pista concreta alguma,despertaria, na certa, suspeitas de nossa reação, levando-os a adotar medidas drásticas.
__ Nós estamos simplesmente sem ação.__concluiu o dr. Augusto passando a mão direita sobre o rosto ao mesmo tempo que demonstrava uma expressão típica de desãnimo.
__Não diga isso, dr.__comentou o Wilson.__Eu acho que é cedo ainda para emitirmos tal conceito. Assim, vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

Fez uma pausa enquanto olhava atentamente para o papel e continuou.
__ Parece que,do item anterior, analisamos tudo. Vamos agora ao seguinte: item 5 “Ao receberem este aviso, se tomarem a medida que normalmente se toma em tais casos, fatalmente denunciar-se-ão.”

Ia continuar, quando o dr. Martinho o interrompeu:
__ Foi justamente esse item que levou-me a tomar a iniciativa de procurá-lo ao invéz de ir , oficialmente, `polícia. Pelo que eu pude interpretar, eles contam com elementos dentro da própria polícia. Seria, portanto, uma atitude insensata procurar a polícia sem, pelo menos, tentar localizar um policial em quem se pudesse depositar confiança, para, por intermédio dele, fazê-lo.
__Concordo plenamente com o senhor,dr. Martinho__prosseguiu o Wilson__ Na minha opinião,porém, o aviso que eles nos dão neste item, não passa de um blefe.
__Por que?__ quis saber o dr. Augusto.
__Porque se eles,realmente, contam com elementos dentro da polícia__ explicou o Wilson.__ não nos contariam jamais isso. O meu raciocínio é o seguinte: Todo seqüestrador, normalmente, presume que a família do seqüestrado procure a policia. Sempre que podem,então,procuram localizar elementos descontentes dentro da polícia e, habilmente, abordam-nos para obter sua adesão ao crime atraídos pela promessa de participação nos lucros. Isto quando a iniciativa não parte do próprio policial rebelde que, então, organiza seu bando. Pois bem, esse elemento vai funcionar, dentro da organização policial, como um espião. Primeiro, ele vai informar ao bando se a família procurou ou não a polícia. Depois, com o decorrer das investigações ou negociações, ele vai manter informado o bando, de todos os movimentos da polícia. Naturalmente que só poderá passar informações a que tiver acesso. O bando, por outro lado também, não se vale de elementos de baixo posto hierárquico na polícia. Normalmente eles procuram elementos mais categorizados e,consequentemente, mais ambiciosos. Esses elementos têm acesso a valiosas informações e, quando isso ocorre, um seqüestrador inteligente procura manter a identidade de seu espião, dentro da polícia,no mais absoluto sigilo. Afinal de contas, é um fator de segurança da operação.
Neste caso, se os seqüestradores tivessem, de fato, um espião na polícia, seria muito mais interessante, para eles, omitir-nos essa informação. Estariam assim,como afirmei antes,cientes da investigações.
__ Você acha então, Wilson,que eles somente tentam desestimular-nos de procurar a polícia, intimidando-nos?
__ Exatamente.Pois, do contrário, não estariam sendo coerentes. Mas, olhando bem para esse item, poderemos notar que está um tanto ambíguo. Podem estar se referindo ao que acabamos de analisar, como também a qualquer outra iniciativa de nossa parte. Mas que outra iniciativa pode haver num caso destes, senão procurar a polícia? Vamos, então, nos apegar a essa hipótese. Qualquer reação que pretendermos esboçar, entretanto, será dentro de um clima do mais absoluto sigilo, mesmo porque é condição básica dos seqüestradores, o silêncio.Lembram-se?

Olhou para os dois á sua frente. Pareciam cansados, não tanto pelo esforço mental, mas sim pela desilusão. Já haviam, praticamente, dissecado mais da metade daquelas condições sem localizar uma brecha sequer na estrutura daquele plano.
O delegado insistiu para que jantassem em companhia deles pois pretendia, logo em seguida, continuar com a análise daqueles termos.
Aceitaram. A pausa seria providencial.


De volta à saleta, o dr. Augusto manifestou suas dúvidas enquanto sorvia uma xícara de café.
__ Você acredita, Wilson que temos condições de planejar uma reação dentro de uma margem de segurança?
__ Sinceramente,dr. Augusto, pelo que vimos até agora não dá para pensar ainda numa reação. Temos, entretanto, uma boa parte a analisar e, além disso, o próprio papel, o envelope, o plástico e a cédula de identidade terão que ser analisados pela técnica. Pode ser até que contemos com o automóvel do seqüestrado para ser examinado...
Muitas vezes os seqüestradores preferem abandonar o carro da vítima, o qual poderia despertar suspeitas por ser um carro de maior categoria ou de luxo ou, ainda simplesmente, por não ter onde escondê-lo. Nesse caso,então, ele pode ser portador de valiosas pistas, principalmente se nele viajaram os seqüestradores.

Terminaram o café e dispuseram-se a prosseguir com a tarefa que haviam iniciado. O Wilson ajeitou o papel sobre a mesa e aproximou a lâmpada um pouco mais.
__”Ao concordar em pagar o resgate”, diz o sexto item,” coloquem um anúncio no jornal, São Paulo, nos seguintes termos:-- Para os nascidos no mês de Dezembro, o jantar está servido.—seguiremos edições de três dias após os quais, em caso negativo, cancelaremos a operação.”
Este item não deixa de ser um tento exótico. O seu propósito, porém, é bastante inteligente. Necessitam de um contato para obter uma informação que julgam importante mas não querem expor-se aos riscos de um contato direto através do telefone, por exemplo, e nem dar, à família do seqüestrado, chances de negociações. Apelam, então para esse método prático e insuspeito de contato. Não deixam, entretanto, de condicionar tudo a um exasperante limite de tempo e nem de manifestar a sua macabra intenção, aqui habilmente dissimulada, no caso de serem contrariados.
__ Eu, por um momento, tive a intenção __ interrompeu o dr. Martinho __ de já providenciar a publicação dessa senha. Refleti melhor, porém, e achei que seria mais conveniente informá-los no segundo ou terceiro dia. Assim ganharíamos mais tempo.
__ Como assim? __ quis saber o dr. Augusto.
__ É evidente, Augusto, se eu os comunicasse logo de cara eles pensariam que já estávamos de posse do dinheiro do resgate e tratariam logo de passar a informação para o pagamento, roubando-nos, assim, grande parte do tempo.
__ É...certo, você fez bem...Eu estou curioso para saber por que adotaram essa senha “para os nascidos no mês de Dezembro, o jantar está servido”
__ Não vejo grande importância nisso.__respondeu o Wilson__ É uma senha, simplesmente...
__ Não haverá alguma pista por trás disso?__insistiu.
__ Não creio,dr. Se há, eu não consigo ver. O que me preocupa mais é o pouco tempo que nos deram. Três dias é muito pouco... a família do seqüestrado tem condições de levantar o dinheiro do resgate em três dias?
__ Talvez.__respondeu o dr. Augusto. Eu vou começar a providenciar isso logo de manhã.

O dr. Martinho deixou transparecer uma expressão de alívio. Esse ponto vinha atormentando-o continuamente.
O Wilson analisava ainda o papel atentamente e vendo que, no item anterior, não havia mais nada que merecesse comentário, resolveu ir em frente.
__ Prosseguindo com a nossa via sacra, vamos ver o que tem o 7º item. “O valor do resgate é de R$ 10.000.000,00 que deverão ser pagos, tendo como portador, pessoa da família, em notas não seriadas, acondicionadas em menor volume possível dentro de uma maleta, de acordo com instruções abaixo. Não apanharemos o resgate se notarmos algo de estranho em qualquer sentido, tendo como conseqüência o cancelamento da operação.”

Fez uma Pausa enquanto lia novamente, em silêncio, aquele item, para compreendê-lo melhor.
Todos naquela sala já estavam demonstrando visíveis sinais de cansaço gerado pela excessiva concentração e tensão. Nenhum deles, porém, tinha a intenção de parar. Sabiam, perfeitamente, que era de suma importância aproveitar integralmente o tempo. A vida de um homem estava condicionada a esse fator e era preciso salvá-la. Finalmente o Wilson levantou os olhos do papel e continuou.
__ O que me intriga mais neste item é a razão pela qual o valor, ou melhor, a cifra R$ 10.000.000,00, foi manuscrita, depois, no papel datilografado...vejam só __ mostrou-lhes o papel.

Eles já haviam notado também mas não sabiam a razão daquele procedimento por parte dos sequestradores.

__ De fato,__ confirmou o dr. Augusto__os algarismos foram manuscritos depois.

O dr. Martinho devolveu o papel ao Wilson que recolocou-o sobre a mesa e continuou.
__ parece-me que a única hipótese viável é a de que eles elaboraram o plano , pré-fabricaram estas condições de resgate e saíram por aí afim de caçar uma vítima qualquer, escolhida ao acaso, que tivesse condição, naturalmente, de pagar-lhes uma vultuosa quantia.
__ Como iriam saber se a vítima tinha dinheiro ou não?__perguntou o dr. Martinho.
__ Existem várias maneiras de se saber se a vítima tem dinheiro, dr. Martinho...naturalmente que se orientaram pelas aparências. O carro, por exemplo. Uma pessoa bem trajada, dentro de um carrão do ano aparentará, naturalmente, ser uma pessoa rica. Basta, então, que os seqüestradores sigam aquele carro e confirmem a identidade de sua vítima, podendo,até,durante dias, estudar seus hábitos esperando por uma oportunidade de seqüestra-la. Neste caso ,porém este curioso detalhe de a importância ter sido colocada depois no papel, leva-nos a crer que a ação do seqüestro foi executada logo após a localização da possível vítima sem mesmo a confirmação da potencialidade financeira do seqüestrado. Presume-se,então, que já estavam com estas condições prontas, faltando somente colocar o valor do resgate, valor esse que estipularam quando já de posse da vítima.

Voltou a examinar o papel e prosseguiu:
__ Quanto à importância, é, de fato, uma soma vultuosa. Para ser levantada em um tempo tão curto, é necessário que se tenha muita influência nos meios financeiros.
__ Podemos deixar isso a cargo do dr. Augusto, viu Wilson__ disse o dr. Martinho, com uma certa ironia.
__ Eu cuido dessa parte.__retrucou o dr. Augusto muito sério.
__ Pois bem,__ continuou o Wilson__ este item parece ser o único que é uniforme em todos os pedidos de resgate. É aquele blá-blá-blá de notas não seriadas, usadas, acondicionadas em pequeno volume, etc...
__ Há um pequeno detalhe aí,viu, Wilson __interveio o dr. Augusto__ eles pedem que o resgate seja portado por pessoa da família...quem vai levar isso lá?__ enquanto dizia a última frase olhava para o dr. Martinho, que respondeu imediatamente:
__ Isso é o de menos...eu resolvo lá com a Ester.
__ Não é tão simples assim, dr. Martinho.__ retrucou o Wilson__ A questão levantada pelo dr. Augusto foi providencial. Para entregar o dinheiro aos seqüestradores teremos que indicar uma pessoa que seja, sobretudo, calma, pois a pessoa com essa qualidade terá muito mais condição de observar as características dos elementos presentes nesse contato. Quanto ao fato de ser ou não da família, tenho a impressão que os seqüestradores não têm condições de identificá-lo.
A serem marcados, que será
Após uma breve pausa, prosseguiu:
__ A última parte do item, como não poderia deixar de ser,não é nada mais que a clássica ameaça de cancelamento da operação e, consequentemente, a eliminação do refém.

Tanto dr. Augusto quanto dr. Martinho perceberam que o Wilson perdera muito da sua eloquência e entusiasmo com que iniciara a análise daquela série de itens humilhantes e frios. O cansaço abatera-o e ele não conseguia dissimular isso. Encontrou, entretanto, forças para levar até o fim aquilo que havia iniciado.

__ Finalmente, meus amigos,vamos ver o que mais eles querem neste oitavo e último capítulo do drama. Aqui diz: “Esteja com a importância em local, data e hora a serem marcados, que será apanhada por elemento que está sendo pago unicamente para apanhá-la e desconhece o plano e seus mentores, o qual, se defrontar-se com situações, de antemão, identificadas como adversas, tem instruções de sinalizar-nos utilizando de método especial, sendo que, com tal movimento, inconscientemente, privar-se-á da própria vida. Em tal hipótese cancelaremos a operação.”

Também esse item ele fez questão de ler novamente antes de começar os comentários.
__ É...realmente fecharam com chave de ouro, toda sua representação...Vamos ver por etapas,então.
Ao omitir-nos a data e a hora para recolhimento do resgate pretenderam, naturalmente, evitar que preparássemos uma operação de cerco, como se seu plano já não estivesse suficientemente encouraçado como tivemos oportunidade de verificar pelos itens anteriores. Resta saber como entrarão em contato conosco para fixar o local, a data e a hora. Naturalmente que vão cercar esse contato de toda segurança possível para evitar fornecer-nos pistas. Mas, prosseguindo, vemos que na parte seguinte eles alegam dispor de um elemento exclusivamente para comparecer ao encontro e recolher o dinheiro do resgate, afirmando que esse mesmo elemento é uma espécie de testa de ferro. Não sabe de nada.
Eu, sinceramente, acredito na afirmação deles. É perfeitamente possível e, mais que isso, é mais seguro para eles. Afinal de contas é a fase mais vulnerável de toda operação. Eles não se contentam, entretanto, com essa garantia de ter como luva, por assim dizer, um elemento que ignora o assunto. Eles querem sentir-se mais seguros ainda. Fizeram a coisa de tal maneira que esse elemento, além de ignorar o plano e a identidade de seus mentores, autodestruir-se-á automaticamente e sem o saber, naturalmente, pensando estar emitindo para eles um sinal pré-estabelecido no caso de ser molestado ou deparar-se com situações adversas, como dizem aqui.
__ Como pode ser isso, Wilson?__ perguntou o dr. Martinho__ eu não entendi muito bem isso aí...
__ É simples, dr. Vou citar uma hipótese. Pode ser que esteja errado. Vamos supor que o individuo encarregado de apanhar uma maleta chegue ao local combinado, Observa o ambiente. Se estiver tudo normal, ele entra. Se ele notar alguma anormalidade qualquer ou, se ao entrar em cena, for abordado pela polícia ou ainda se, depois de afastar da cena, sentir-se perseguido ou seguido, estando de carro,poderá ter sido instruído para acionar algum controle que é usado somente em casos especiais...os contatos dos faróis de milha, por exemplo...
Ao executar esse movimento poderá detonar uma carga de explosivos colocada sob seu banco, pensando estar operando os faróis de milha.
__ É fantástica a imaginação desses caras__ observou o dr. Martinho.
__ Mas pode crer,viu, dr. __ continuou o Wilson__ que essa história de sinalizar por método especial, privar-se inconscientemente da própria vida,etc...é tudo papagaiada. Não tem nada disso. O que eles querem é intimidar-nos para não os molestarmos, isso sim.
Que o elemento de contato desconheça o plano e seus mentores, pode ser verdade...disso eu tenho quase certeza.
__ Mas se for tudo verdade? __ insistiu o dr. Martinho
__ dr.,__esclareceu o Wilson __ essas conseqüências aconteceriam se a policia abordasse o elemento ou, simplesmente, se manifestasse diretamente de uma forma ou de outra. Nós simplesmente não temos condições de manifestar-nos em tais circunstâncias e, além disso, temos que concorrer para que nada de anormal aconteça nesse local, nessa data e nessa hora, pelos seguintes motivos:
Primeiro, porque se algo acontecer o refém será morto imediatamente.
Segundo, porque o refém ainda permanecerá em poder dos seqüestradores pelo tempo que eles julgarem necessário a fim de se certificarem do sucesso da operação. Uma reação retardada, então, de nada adiantaria...

__Muito bem, Wilson __ interveio solenemente o dr. Augusto descruzando as pernas enquanto dobava um pouco o corpo para frente e cruzava os dedos tendo os cotovelos apoiados nos braços da poltrona.__ Nós viemos à sua casa, deviam ser dezoito horas e poucos minutos, com o propósito de pedir a sua opinião a respeito desse assunto, ou melhor, desse incidente. Aceitamos, então a sua sugestão e, principalmente, a sua ajuda no sentido de analisar detalhadamente os termos impostos pelos seqüestradores para a devolução de seqüestrado intacto. Após ficarmos quase metade de uma noite analisando todos esses itens, eu finalmente cheguei à conclusão de que uma reação de nossa parte seria fatal para o Gomes que, para mim, representa muito mais que um amigo...é um verdadeiro irmão. O esquema de segurança dos seqüestradores foi muito bem elaborado. Não nos deixa a mínima chance de reação. Eu, portanto, meus amigos, sou de opinião que devemos pagar o resgate sem oferecer resistência. A vida do meu amigo vale muito mais. Eu acho que seria incapaz de continuar vivendo se viesse a provocar a sua morte...eu sinto muito se discordo da opinião de vocês...mas a minha opinião é essa.

Fez-se um profundo silêncio na sala. O dr. Augusto havia acabado de exprimir sua maneira de pensar a respeito e deixara , agora, a cabeça pender um pouco para frente numa atitude de resignação e desânimo. Causava pena ver aquele homem que jamais sofrera humilhações na vida, assumindo aquela atitude de derrotado, em nome da amizade e da solidariedade humana. Filho de rica família do interior, tinha recebido uma educação esmerada. Herdara do pai, sábios conselhos, dentre os quais um marcara-o mais: “ Pense duas vezes antes de agir”. Daí a sua prudência nas decisões. Acostumado a tomar decisões no seu cargo, juntamente com o Gomes, nunca se deixara inflamar com as boas perspectivas e nem se deixara vencer pelas más. Sempre procurou analisar tudo sob um prisma realista, sem euforismos nem comiseração. Ele aceitava aquilo que, na sua concepção, era real. Foi justamente esse temperamento que o levou a emitir aquele conceito sobre o seqüestro.

O delegado Wilson, por sua vez, tinha se recostado na poltrona e, tendo afastado-a um pouco da mesa, cruzara a perna direita sobre a esquerda, enquanto dos dedos das mãos se entrelaçaram atrás da nuca que estava apoiada no encosto. Fechara os olhos e tentava coordenar as idéias que fervilhavam em sua mente. Após ter ouvido calado a rendição do dr. Augusto,participou, por alguns minutos, do pesado silêncio que se havia abatido sobre eles mas, na condição de macaco velho, resolveu reanimar os companheiros.

__ Dr. Augusto, eu penso que o senhor está se deixando levar por preconceitos...Eu, sinceramente, me considero autoridade no assunto. Estou há dezessete anos nessa jogada. Posso assegurar-lhe, dr, que não está na hora de fazermos ainda um conceito a respeito disso. É verdade sim que, depois de analisarmos isto não encontramos nenhuma brecha mas, como já afirmei atrás, ainda dispomos de elementos para investigar e, partindo do princípio de que todo plano tem sempre uma falha, ela deve estar nesses elementos que ainda não investigamos. Se após investigarmos tudo e constatarmos que, de fato, o plano deles é tão bem feito que não admite reação, a qual estaria condenada ao insucesso, aí então faríamos como o Sr. sugeriu, pagaríamos o resgate sem reação. Afinal...temos que conhecer nossas limitações. O que acho um absurdo, é começar a investigar alguns elementos e, pelo fato da investigação não apresentar resultado positivo, desanimar logo de cara e deixar de investigar os restantes. Que é que o senhor acha, dr. Martinho?

O dr. Martinho até então tinha estado quase deitado na sua poltrona, os braços cruzados sobre o peito, as pernas esticadas e os pés encavalados um sobre o outro. A cabeça estivera durante todo tempo pendendo sobre o peito. Quem o visse pensaria que estava dormindo. Sua mente, porém, estava em ebulição. Não conseguia, entretanto fixar-se em nenhuma idéia. Estava por demais cansado.

__ Eu, sinceramente, concordo com o seu ponto de vista,Wilson e acho que o dr. Augusto está sendo, de fato, um pouco precipitado no seu julgamento. Todavia há uma pessoa cuja decisão será essencial; a esposa do seqüestrado.Ela, quando tomou conhecimento do ocorrido por intermédio desta carta,ficou com os nervos um tanto abalados mas felizmente é uma mulher extremamente forte e creio que amanhã estará em condições de opinar com bom senso.
__ Se os senhores me permitem uma sugestão__ disse o Wilson ajeitando o corpo na cadeira__ vamos deixar o assunto situado da seguinte forma: como temos aqui duas opiniões antagônicas, vamos aguardar o pronunciamento da esposa do seqüestrado. Se ela for favorável ao prosseguimento das investigações com o propósito de manifestar uma possível reação dentro de uma margem de segurança, então os senhores devem procurar-me amanhã lá na delegacia para procedermos ao registro da queixa e iniciarmos as investigações que se fizerem necessárias. O Sr. tem o meu endereço, não dr. Martinho?
__ Sim, tenho o seu cartão. Mas vamos esclarecer um ponto, Wilson. Apesar de você achar que a informação que eles nos prestaram, de contar com elementos dentro da policia, ser...
__ Um conceito hipotético,dr.Martinho__ interrompeu o Wilson__ Pode ser que não interpretamos exatamente aquilo que quiseram nos dizer.
__Oh sim, você tem razão, Wilson.Mas como eu estava dizendo__prosseguiu o dr. Martinho__ eu quero crer que, devido à gravidade do caso, você mesmo conduzirá as investigações e, em suma, tudo o que se relacionar com ele.
__ Pode ficar tranqüilo, dr. Martinho. Vai ser como eu comentei antes quando analisávamos o item que o senhor acabou de mencionar, lembra-se? Eu havia dito, no final, que qualquer atitude adotada de nossa parte seria cercada do mais absoluto sigilo, mesmo porque o sigilo é condição básica imposta por eles. É evidente,entretanto que se os senhores vieram a registrar a queixa do ocorrido, eu,naturalmente não vou poder trabalhar sozinho no caso. Quero,contudo que fiquem cientes que este caso não será para mim um caso como outro qualquer. Será um caso especial e, como tal,merecerá atenção especial, não tanto pela amizade que existe entre nós mas mais pela essência do caso que, eu com toda a sinceridade, considero se não o mais, pelo menos um dos mais complexos e melindrosos casos que já me apareceram. Vou, portanto ter de depender de coadjuvantes mas estes serão escolhidos a dedo entre os de minha inteira confiança.
__ Mas pode ser, Wilson,__ interrompeu o dr. Augusto__ que você necessite dos serviços de outros departamentos...a técnica, por exemplo.
__ Sem dúvida que vou necessitar, dr.Augusto. Acontece, porém, que conto com um grande circulo de amizades em quase todos os departamentos. Amizades geradas pelo convívio e troca de favores que, ao longo dos anos, sedimentaram-se. São pessoas de minha inteira confiança. Além disso, vou falar com um grande amigo na central o qual vai ser de grande valia na condução das investigações.
__Vamos, então, fazer como você sugeriu: eu e o dr. Martinho vamos falar com dona Ester e expor-lhe tudo o que tratamos aqui, as conclusões a que chegamos, os riscos e as chances de uma reação. Ela, então decidirá se registramos a queixa ou não.
__ Quero lembrar-lhes mais uma vez__falou o Wilson__ que temos, ainda, chances de descobrir uma falha deles nos elementos que ainda estão por ser examinados e que esse exame só será possível mediante o registro formal da queixa. A análise que fizemos aqui, apesar de ter sido uma análise bastante detalhada, foi apenas introdutória e informal. Após o registro da queixa, isso tudo será analisado novamente bem como todos os elementos que vierem a cair-nos nas mãos.
__ Bom, Wilson,__ concluiu o dr. Martinho__nós queremos, antes de mais nada agradecer sua atenção e colaboração, principalmente a maneira prestimosa que, com sacrifício de seu tempo até, nos atendeu. Pode crer que sua ajuda no esclarecimento deste caso foi e será de grande valia, pois eu tenho quase certeza que dona Ester vai concordar que se registre a queixa e prossiga as investigações.
__ Eu gostaria de ficar com este papel, se vocês não se opõem,__pediu o Wilson,__ preciso dar mais uma olhada, pela manhã.
__ À vontade, Wilson.__respondeu o dr. Augusto.
__ Amanhã, quando me procurarem, não se esqueçam de levar a cédula de identidade que estava no envelope,sempre tomando o cuidado de segurá-la pelas bordas.
__ OK,__confirmou o dr. Augusto, fazendo menção de levantar-se enquanto o dr. Martinho, olhando para o relógio, exclamou:
__ Por incrível que pareça, são onze e meia!

Automaticamente os outros olharam para seus relógios, sem esconder o espanto.
__ Deixe-me servir-lhes mais um café.__observou o Wilson levantando e dirigindo-se para a porta.
__ Não.Não se preocupe, Wilson.__interveio o dr. Martinho__Já é um pouco tarde e o café tirar-me-ia o sono.
__ Então deixe-me mostrar-lhes um conhaque que tenho aqui. Está mesmo um pouco frio lá fora.

Levou-os até a sala onde convidou-os a sentar e serviu-lhes um cálice da bebida que foi prontamente elogiada. Conversaram ainda durante alguns minutos enquanto o dr. Martinho tirava baforadas de seu cigarro. Os três pareciam bastante cansados mas, ao mesmo tempo, satisfeitos. O tempo tinha sido aproveitado da melhor maneira possível.
__ Não obtivemos resultado positivo mas foi um trabalho e tanto, não, Wilson?
__ É sempre assim,dr. Augusto. Eu já estou acostumado. À primeira vista, é sempre aquela decepção. Depois a gente vai vendo as coisas mais claramente.
__ Quem poderia ter elaborado esse plano?__ perguntou mais para si mesmo o dr. Martinho enquanto apressava-se em cobrir, com a mão, um bocejo que viera estrangular o final de sua frase.
__ É o que gostaríamos de saber, dr. Martinho...__ respondeu o Wilson, em tom de gracejo, que ouvira a quase imperceptível pergunta.

Riram todos enquanto o dr. Augusto agora punha-se de pé decidido a despedir-se do Wilson para retirar-se.
Caminharam até a porta ainda fazendo alguns comentários despretenciosos. Apertaram-se as mãos e afastaram-se enquanto uma chuvinha fina insistia em cair quase imperceptivelmente.



A manhã do primeiro dia subseqüente ao que fora encontrada a carta no jardim dos Gomes estava radiante. Na noite anterior havia chovido um pouco o que contribuira para amenizar o calor que fizera durante o dia. Tudo era rotineiro. O sr. João andava por todos os lados, às vezes apressado, às vezes com sua costumeira pachorra, falando com um, procurando por outro ou simplesmente observando as atividades.
No interior da residência o telefone já havia tocado três vezes antes que o Durval acabasse finalmente de enxugar as mãos e o atendesse.
__ Alô!
__ Durval? é o dr. Martinho...
__ Ôh, dr.! como vai?
__ Dona Ester já acordou?
__ acabou de acordar e está no banho, dr. O sr. quer falar com ela?
__ Não. Diga-lhe que eu e o Dr. Augusto estamos indo para aí. Precisamos falar com ela.
__Sim,sr. Eu aviso

Desligou e dirigiu-se ao andar superior para certificar se ela ainda estava no banheiro. Já havia saído, mas como ela ainda estava no quarto, resolveu falar-lhe através do interfone.
Ela deixou a escova sobre a mesinha para apertar o botão do aparelho,responder e ouvir:
__ Dona Ester,recebi um telefonema do dr. Martinho dizendo que ele e o dr. Augusto estão vindo para cá a fim de falar com a senhora.
__ OK, Durval. Quando chegarem, leve-os até a biblioteca. Estarei lá.

Apanhou novamente a escova e continuou a cuidar de seus cabelos enquanto refletia ainda meio confusa. Nessa noite tivera o sono muito agitado e povoado de sonhos terríveis. Teria que apelar para um pouco de maquiagem para não deixar transparecer ao dr. Augusto e dr. Martinho a sua feição cansada e um tanto abatida como insistia em mostrar-lhe o grande espelho à sua frente. Tentava lembrar-se dos termos daquela terrível carta enquanto virava a cabeça de um lado e do outro, diante do espelho, e, com a escova, dava os últimos retoques nos sedosos cabelos negros. Percebeu, intrigada, que não conseguia lembrar-se de quase nada. Fora um golpe muito duro para ela e procurava, instintivamente, afastar-se daquela lembrança. Por outro lado, havia uma estranha força que a incitava a combater aqueles indivíduos que ousaram desafiá-la. Após ter trocado de roupa, apreciou sua imponente figura refletida no espelho e pensou:
__Não, Ester, você não vai se deixar vencer por esse bando de cretinos. Você vai lutar contra eles de algum modo e vai mostrar lhes que o fato de ser mulher, não a inferioriza em coragem.

Abriu o guarda-roupas, de onde retirou uma malha e atirou-a sobre os ombros sem vesti-la. Apanhou o inseparável maço de cigarros e dirigiu-se à biblioteca. Logo ao entrar, avisou o Durval, pelo interfone, para trazer-lhe o desjejum. Ligou o som e ficou a ouvir repousante música de piano e orquestra enquanto acomodava-se na poltrona atrás do birô. Fêz girar a poltrona até que ela ficasse de frente para a janela e, com os braços cruzados sobre o peito, deixou que aquela paisagem inebriante banhada pelo sol da manhã entrasse-lhe pelos olhos e fosse dançar em sua alma ao som da rapsódia que entrava-lhe pelos ouvidos.
Tinha um grande problema, é verdade. Iria resolvê-lo. Não sabia como,só sabia que iria resolvê-lo. Não tinha a mínima intenção de deixar-se levar pelo desespero e pelo pânico. Não ajudariam em nada mesmo...Tomaria seu café tranquilamente e depois, calmamente, fumando seu cigarrinho, receberia o dr. Martinho e o dr. Augusto. Na certa eles a colocariam a par de tudo o que já fora feito e da situação atual das coisas. Um leve tinir de metal despertou-a de seus pensamentos e, virando-se, deu de cara com seu café matinal sobre a mesa, tendo como pano de fundo a brancura do paletó do Durval.
__ Bom dia, dona Ester. Dormiu bem?
__ Bom dia, Durval. Não durmi muito bem, não. O que é uma barulheira danada que se ouve durante toda noite na janela da sala? Parece alguém mexendo na janela...
__ Ah, deve ser o galho do abacateiro que, por estar muito próximo à casa, chega a tocar na janela. À noite, então, pela ação do vento, produz esses ruídos que a senhora ouviu.
__ Pois faça-me um favor, diga ao João para providenciar o corte desse galho imediatamente...
__ Quebrar o galho?...É comigo mesmo!

A mulher levantou bruscamente a cabeça para ver quem se atrevera a pilheriar com suas ordens, enquanto o empregado, à sua frente, olhara para trás, com a firme intenção de transferir para aquele lado a responsabilidade pelo atentado.
Uma boca escancarada emitiu uma série de ruídos como se fossem rugidos cortados em fatias que pretendiam ser chamados de risada.
O dr. Augusto, seguido pelo dr. Martinho, irrompeu na sala enquanto o Durval, com uma leve reverência, saiu e fechou a porta.
__ Como vai,Ester? __ falou estendendo-lhe a mão__ Você está com uma ótima aparência...Não é mesmo, Martinho?
__ Claro! Parece até mais gorda __ disse o médico enquanto ria e apertava-lhe a mão.
__ Cretinos mentirosos! __ rosnou ela apontando-lhes as poltronas que já estavam sendo ocupadas.__eu imagino que, como sempre, vocês vão querer só o cafezinho...

Ainda falava, quando apertou o botão do interfone e o pediu ao Durval.

__ Como passou a noite, Ester? __ perguntou o dr. Martinho?
__ Noite maravilhosa, viu Martinho... uma verdadeira noite de núpcias. Além dos agradáveis pesadelos, havia um desgraçado d’um barulho na janela de baixo que dava calarios...

Dona Ester se ocupava agora em passar geléia em um pedaço de pão, recostada na poltrona, numa atitude tão tranqüila, que chegou a impressionar o dr. Martinho. Aquela mulher tinha uma incrível capacidade de recuperação. Quem a visse ali, pensaria ser ela a própria ausência de problemas. Desligou o som.

__ Que é que vocês me contam?
__ Bem, Ester...__começou o dr. Martinho__nós estivemos ontem até quase meia noite na casa de um amigo delegado

Ela assentiu com a cabeça e ele continuou.
__ Nós submetemos à apreciação dele a carta que foi encontrada no jardim, a qual teve seus itens praticamente dissecados. Foi feita mesmo uma análise profunda e geral.
__ E qual a conclusão? __ quis saber a impaciente mulher.
__ Por enquanto não encontramos nada que possa parecer uma pista. O Wilson, entretanto, acha...
__ Quem é o Wilson, Martinho?
__ É o delegado, Ester.
__ Ah sim! Continue.
__ O Wilson acha então que devemos registrar a queixa para que a polícia possa examinar outros elementos à luz da técnica.
__ Que outros elementos?
__ Bom... O próprio material que encontramos no jardim, o papel, o envelope , o plástico que o envolvia e a carteira de identidade do Gomes. Aliás, a carteira de identidade ficou aí com você,não?

Ela abriu a gaveta para certificar-se.
__ Segure-a somente pelas bordas como se faz com os discos, Ester. Assim você evita deixar nela suas impressões digitais e facilita o trabalho dos técnicos...
__ É...está aqui,sim. Por que, vocês vão precisar dela?
__ Sim, o Wilson pediu que a levássemos...
__ E vocês vão transportá-la até lá assim, segurando-a pelas bordas?...__ disse ela com um leve toque de ironia.

O dr. Martinho não conseguiu imaginar um método de transportar aquele objeto sem que se estabelecesse contato com outro material.
Por fim o dr. Augusto, que até então,permanecera calado,arriscou uma opinião que pareceu-lhe sensata.

__ Meta um clipe em cada canto dela e enfie-a num envelope...

Enquanto ela fazia o que foi sugerido,perguntou:

__ Por que vocês decidiram recorrer a esse delegado...o Wilson, antes de ir direto à polícia e registrar a queixa?
__ Por dois motivos __ explicou o dr. Augusto__Primeiro, porque os bandidos impõem silêncio como condição básica da operação...se fôssemos direto à polícia, correríamos o risco de ver o assunto se alastrando por aí, levado pela língua de irresponsáveis.
Segundo, porque eles deram a entender em um item das condições, que dispõem de espiões dentro da própria polícia, o que o delegado acha pouco viável pelo simples fato de nos haverem comunicado isso.
__ Que é que vocês acharam desse delegado?
__ Brilhante! __ respondeu o dr. Martinho.
__ Não resta dúvida.__concordou o dr. Augusto.__ o homem conhece bem a sua profissão. Analisa tudo com clareza e objetividade. Se não encontramos pistas naqueles termos,é porque não existem mesmo. Aquilo foi produto de anos de estudo e pesquisa. Por outro lado a impressão que tive do homem é boa.Parece um indivíduo em quem se pode depositar inteira confiança.
__ Qual a opinião de vocês? Devemos ou não, registrar a queixa?

O dr. Martinho foi firme:
__ Eu sou de opinião que devemos registrar a queixa,viu, Ester. Agindo assim, daremos ao Wilson, oportunidade de analisar os outros elementos que ainda não foram examinados, os quais poderiam perfeitamente esconder pistas valiosas. O que não devemos fazer é adotar atitudes precipitadas. Após uma análise detalhada de tudo, iríamos verificar a possibilidade de uma reação que não oferecesse perigo á vida do Gomes. Acho, então, que não devemos desanimar, sem antes haver pesquisado tudo.

Ficaram, os três, em silêncio por alguns momentos, quando, então, dona Ester olhou para o dr. Augusto, inquisidoramente.

__ Bom, Ester, o dr. Martinho e o delegado Wilson comungam as mesmas idéias__falou ele__ eu acho perfeitamente natural isso...afinal, quando se toma conhecimento de um crime, a primeira reação é de repressão ao mesmo. Acontece, porém, que eu não consigo ver a coisa assim. Para mim, a idéia do crime está em segundo plano. Em primeiro plano está a vida do meu amigo e companheiro. Eu, sinceramente , acho muito arriscado uma reação de nossa parte. Eu não suportaria a responsabilidade pela morte do Gomes.

A mulher havia terminado seu café. Limpou calmamente os dedos no guardanapo, atirando-o depois sobre a bandeja, a qual ,por sua vez, foi afastada como um objeto usado e obsoleto. Chamou o empregado para retirar os despojos de sua primeira refeição e, dirigindo-se à janela enquanto acendia um cigarro, observou,em silêncio, a cena ensolarada que se passava no palco daquela manhã.
__ As opiniões__ pensou__ parece que estão equilibradas.Sem dúvida que a vida do Gomes está em primeiro plano. Isso nem se discute. Mas, por outro lado,não me sinto nem um pouquinho inclinada a dar o braço a torcer sem esboçar nenhuma reação.
O Durval entrou e retirou a bandeja mas parece que ela nem o percebeu, tão absorta estava em seus pensamentos.
Finalmente virou-se para os dois e disse:
__ Ao que tudo indica, vocês divergem em opinião e resolveram, então, deixar que a minha opinião prevaleça,não?
Pois bem, eu vou registrar a queixa para que a polícia analise todos os elementos e levando sempre em consideração a segurança do Gomes, aja antes ou depois de haverem solto meu marido, na medida das possibilidades.
Conservara-se de pé enquanto proferia o solene veredicto, após o que, sentou, apagou o cigarro no cinzeiro e ajeitando a blusa nos ombros, olhou para o dr. Martinho enquanto cruzava os dedos sobre a mesa.
Eu quero crer, Martinho, que esse seu amigo, o Wilson, vá dirigir pessoalmente todas as investigações em torno do caso...
__ Já tenho a palavra dele __ respondeu o médico.

O dr. Augusto franziu os sobrolhos, numa expressão de quem diz:” faça-se a tua vontade”. Sabia, porém, que uma reação antes da devolução do refém, seria o mesmo que condená-lo à morte. Após a devolução, seria uma ação quase inútil pois que as pistas estariam praticamente apagadas pela ação do tempo. Não atreveu, entretanto a opor-se. Afinal ele representava minoria e, além disso, até certo ponto, eles tinham razão. Tudo tinha que ser examinado minuciosamente. O que ele temia, era a possibilidade de fazer-se uma besteira,pensando estar seguindo uma pista. O preço do erro seria a morte de uma pessoa. Evitava até em pensar nisso...

__Bom...Vamos ver agora,__ continuou dona Ester__ o assunto do dinheiro para o resgate...
__Eu tomei a liberdade de cientificar o dr. Augusto do que ocorrera__atalhou o médico__ porque ninguém melhor do que ele poderia incumbir-se da parte financeira da coisa...
__ Sem dúvida,__respondeu dona Ester__ foi uma providencial escolha...quanto eles pediram mesmo?
__ dez milhões__disse secamente o dr. Augusto__ e só temos hoje, amanhã e depois para avisá-los que o dinheiro está pronto...
__ É um bocado de dinheiro e um prazo tão pequeno...__sussurrou dona Ester__ você já providenciou alguma coisa, Augusto?


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